Cachos, Beleza e Alegria
Gabi apareceu na segunda semana de aula do primeiro ano na turma de Ana e Marcos. Era uma daquelas presenças impossíveis de ignorar. Alta, negra, cabelos bem cuidados, com cachos perfeitos que desciam até o meio das costas e balançavam com leveza a cada passo, ela unia atitude e beleza de forma natural. Seus olhos verdes, marcantes e expressivos, contrastavam com a pele. Mesmo usando o uniforme do colégio, conseguia impor estilo. Tinha um jeito de se mover que lembrava alguém que sabia exatamente quem era. Alegre, extrovertida e cheia de vida, Gabi entrava em qualquer ambiente como se estivesse prestes a torná-lo mais interessante.

Ana notou logo de cara como ela falava alto, ria com vontade e fazia questão de estar onde Marcos estivesse. Durante a ida para o intervalo, Gabi quase tropeçou tentando se aproximar dele com naturalidade, e Ana teve que segurar a risada.
Ela parecia legal, só não estava muito interessada em fazer amizade com Ana. Sempre que falava com ela, era com um sorrisinho educado, mas o olhar logo se voltava para ver onde Marcos estava. Ana não se incomodava — na verdade, se divertia observando os esforços.
Durante um intervalo, no pátio central, enquanto os representantes — Marcos era um deles — se organizavam para a reunião sobre as atividades do trimestre, Gabi se aproximou com um caderno aberto e um olhar ligeiramente dramático.
— Marcos, você manja de matemática, né? Eu tô quase surtando com esses exercícios… será que você consegue me ajudar mais tarde?
Ela sorriu e inclinou levemente o corpo na direção dele, como quem pedia um favor pessoal e inadiável.
Marcos, sempre prestativo, olhou o caderno rapidamente.
— Agora eu tô um pouco ocupado. Mas essa matéria quem tá mandando muito bem é a Ana. E ela provavelmente vai estar no dormitório feminino depois do jantar, estudando. Acho que ela consegue te ajudar com mais calma que eu — disse, sem notar o olhar um pouco frustrado de Gabi.
— Ah… tá. Valeu — respondeu ela, forçando um sorriso, claramente desapontada com o desvio do plano original.
Ana, que observava de longe enquanto fingia estar concentrada no próprio livro, não conseguiu conter um sorrisinho. Gabi era criativa nas abordagens, e Marcos continuava sendo o mesmo: direto, prático e aparentemente alheio às investidas disfarçadas.
Kayla, ao lado de Ana, cochichou:
— Acho que ela vai precisar de um plano B.
Ana mordeu o lábio para não rir, balançando a cabeça. Era engraçado ver o quanto ela se esforçava e ele não percebia.
Num domingo de manhã, Ana estava subindo a escadaria do dormitório, com alguns livros apoiados contra o peito e uma maçã na outra mão. Voltava do café da manhã no refeitório e tentava organizar mentalmente os horários da semana enquanto comia. Ao mesmo tempo, equilibrava os livros com o braço e dava outra mordida na fruta.
Foi quando um dos livros escorregou.
Ana tentou segurá-lo, mas acabou deixando outros mais caírem nos degraus.
— Ah, não…
Ela se abaixou depressa, ainda segurando a maçã, mas Gabi, que descia as escadas, foi mais rápida.

— Você sempre anda com tantos livros assim? — brincou, entregando alguns deles a Ana.
— Eu dei uma passadinha na biblioteca mais cedo — respondeu Ana, tentando equilibrar a maçã, os livros e a própria dignidade.
Gabi pegou os outros dois volumes e se levantou.
— E deixou algum livro para os outros alunos?
Ana riu, ajeitando os livros contra o peito.
— Eu gosto de ler.
— Percebi. — Gabi olhou para a pilha e depois para a maçã na mão dela. — Quer ajuda para carregar isso ou você pretende fazer malabarismo até o quarto?
Ana hesitou por um instante, surpresa com a oferta.
— Se não for incômodo…
— Não é.
Gabi apoiou os livros no braço e começou a subir ao lado dela.
— Você é a amiga do Marcos, né? — perguntou Gabi, ajeitando o cabelo com um gesto automático.
Ana assentiu, sorrindo.
— Sim, a gente se conheceu no comecinho.
— Ah. Legal. — Gabi deu um meio sorriso e olhou para os livros. — Ele é bem… focado, né?
Ana riu de leve.
— É, ele leva as coisas a sério.
— E você também, pelo visto. — Gabi ergueu um dos livros. — Aposto que vai passar o domingo inteiro lendo.
— Talvez.
— Sabia. Você tem cara de quem lê até a embalagem do cereal.
Ana soltou uma risada.
— Não cheguei nesse ponto.
— Ainda.
As duas continuaram subindo, e Gabi entregou os livros a Ana quando chegaram ao corredor do dormitório.
— Pronto. Sua biblioteca está salva.
— Obrigada.
— De nada. — Gabi ajeitou uma mecha dos cachos atrás da orelha. — Bom, até mais.
E saiu andando com as amigas antes que Ana pudesse responder. Ela ficou observando por um instante, divertida, antes de voltar a morder sua maçã. Com Gabi, tudo parecia um pequeno espetáculo e Ana… até que gostava de assistir.
♡♡♡
O sinal tocou, anunciando o fim da aula de biologia. Ana fechou o caderno com um suspiro satisfeito — tinha conseguido entender toda a parte dos sistemas endócrinos sem perder o fio da explicação. Enquanto guardava os materiais, sentiu uma sombra se aproximar.
— Ei — disse Marcos, parando ao lado dela com o mesmo jeito tranquilo de sempre. — Quer revisar história hoje à tarde? A prova tá chegando, e eu ainda confundo os tratados de paz.
Ana assentiu, sorrindo.
— Claro, Senhor Certinho!
— Biblioteca, duas em ponto?
— Combinado.
Nesse momento, Gabi se aproximou, fingindo estar apenas passando, embora o olhar atento e o sorriso calculado entregassem seu verdadeiro interesse.
— Oi, gente! — cumprimentou, ajeitando os cabelos longos atrás da orelha. — Estavam combinando algo?
Ana hesitou por um segundo, mas respondeu:
— Só uma sessão de estudos pra história.
— Ah, que legal! Posso ir também? Preciso revisar história e… bom, estudar em grupo é sempre melhor, né? — disse Gabi, olhando para Marcos com uma piscadela quase imperceptível.

Ana e Marcos trocaram um olhar breve. Nenhum dos dois queria dizer “não”, mas ambos sabiam que a presença de Gabi poderia diminuir o foco.
— Tudo bem pra você, Ana?
— Claro, quanto mais gente, melhor — disse ela, mesmo que o entusiasmo não estivesse no tom da voz.
— Então tá combinado! Biblioteca às duas. Vou levar meu marca-texto rosa neon. Dá até gosto de estudar assim.
Gabi sorriu satisfeita e seguiu pelo corredor com passos leves, ajeitando os acessórios do uniforme.
Ana e Marcos ficaram se olhando por um segundo, meio sem jeito.
— Vai ser… produtivo — murmurou Ana, com um meio sorriso.
— Eu espero que seja mesmo — respondeu Marcos.
♡♡♡
Perto das duas da tarde, Ana Laura chegou à biblioteca. Acomodou-se em uma das mesas do fundo, onde o movimento era menor. Poucos minutos depois, Marcos apareceu com uma garrafa de água e um fichário grosso de anotações.
— Pronto pra aula paralela de história? — brincou ela, já folheando os próprios resumos.
— Sempre — respondeu ele, sentando-se do lado oposto dela.
— Eu trouxe até marca-texto — brincou ela.
— Só não é rosa neon, né? — murmurou ele com um sorriso cúmplice.
Antes que pudessem começar, a porta da biblioteca se abriu e Gabi entrou. Ela estava mais arrumada que o normal. Usava um cropped justo sob um blazer e uma saia curta, com os cabelos cuidadosamente definidos e a mochila no ombro.
— Oi, gente! — disse animada, sentando-se ao lado de Marcos. — Prontos pra sessão de estudos mais divertida do semestre?
Ana ergueu os olhos do caderno e disfarçou um sorriso contido. Marcos apenas assentiu, educado, e voltou à folha onde Ana havia deixado marcado o início do resumo.
— A gente estava revisando a parte sobre os tratados pós-guerra. Quer acompanhar?
— Claro. Só me explica por que esses tratados precisam ter nomes tão difíceis — respondeu Gabi, abrindo o livro.
Ela se inclinou um pouco mais para o lado de Marcos.
— Você pode me ajudar em física depois? Eu me perco toda com essas fórmulas.
— Posso — ele respondeu, educado, mas ainda com os olhos no texto. — A gente pode revisar depois que terminar história.
— Fechado. E você sempre entende tudo assim de primeira? — perguntou Gabi.
— Nem sempre. Só leio até entender.
Gabi tentou puxar assunto mais algumas vezes, fazendo perguntas simples demais e elogiando o quanto Marcos sabia. Ele respondia com a mesma educação monótona que teria com qualquer colega — nem um olhar prolongado, nem um sorriso especial.
Em determinado momento, Ana começou a procurar algo na mochila.
— Você tem um marca-texto? O meu acabou.
Gabi abriu o estojo e mostrou uma coleção de cores.
— Tenho vários. Pega o rosa, se quiser. É o melhor.

Ana aceitou o marca-texto.
— Obrigada.
— De nada.
Ana sorriu de leve e voltou às anotações. O gesto tinha sido pequeno, mas sincero o bastante para surpreendê-la.
Depois de um tempo, Gabi ficou em silêncio. Passou a folhear o livro sem ler e mexer nos próprios dedos, desconfortável com a indiferença de Marcos.
Enquanto isso, Ana tentava disfarçar o desconforto, concentrando-se nas anotações, mas percebendo claramente o clima desconcertado.
Marcos continuava concentrado no texto, fazendo perguntas para Ana como se o mundo ao redor tivesse desaparecido. Gabi observou os dois por alguns segundos, apoiou o rosto nas mãos e soltou um suspiro.
— Vocês são tipo um casal nerd mesmo, né?
— Não! — Ana arregalou os olhos, como se fosse um absurdo.
— O que foi? Eu só quis dizer que vocês… são parecidos, tipo… esse gosto pelos estudos — completou Gabi, tentando parecer despreocupada.
— Acho que a gente só leva os estudos a sério — respondeu Ana, tentando manter o tom leve.
— Uhum… — Gabi murmurou, desviando o olhar.
Marcos se levantou para ir ao banheiro, e Gabi continuou folheando o livro, embora não parecesse estar lendo.
Quando ele voltou, ela fechou o livro com cuidado.
— Gente, acho que preciso ir embora — disse, sorrindo sem graça. — Boa sorte com os estudos.
— Valeu — Marcos respondeu, e Ana só assentiu.
Gabi guardou seu material, mas deixou o marca-texto rosa neon sobre a mesa.
— Pode ficar com ele — disse a Ana. — Você ainda vai precisar terminar esse resumo.
— Tem certeza?
— Tenho. Eu tenho outros cinco.
Ana sorriu.
— Obrigada.
— De nada. Até mais.
Gabi saiu da biblioteca com passos mais rápidos do que na chegada. Ana ficou olhando para a porta por alguns segundos. Sentia dó dela. Embora achasse engraçadas as investidas, conseguia ver a decepção em seus olhos.
Ainda assim, não conseguia mais enxergá-la apenas como uma garota espalhafatosa correndo atrás de Marcos. Gabi era vaidosa, insistente e um pouco atrapalhada quando o assunto era o próprio crush, mas também era gentil.
Ana voltou para as anotações, com o marca-texto rosa neon entre os dedos. Marcos retomou a explicação, e os dois voltaram a estudar em um silêncio confortável.



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