Dúvidas, Desabafos e Amor Fraterno
Pedro entrou no quarto compartilhado naquela noite como quem pisa em campo minado. Marcos estava sentado à escrivaninha, lendo algo no notebook, os fones no ouvido. Parecia concentrado.
Pedro hesitou por um segundo na porta. Respirou fundo.
— Ei… dá pra conversar?
Marcos tirou os fones, girando levemente a cadeira. Observou o irmão por alguns segundos antes de responder:
— Aconteceu alguma coisa?
Pedro jogou a bola de basquete no chão com suavidade e sentou na própria cama, com os cotovelos nos joelhos.

— Meio que sim… ou talvez só na minha cabeça. Não sei.
Marcos ergueu uma sobrancelha, paciente.
— Fala logo, Pedro.
Pedro passou as mãos pelo rosto, nervoso.
— Hoje à tarde, eu… eu tava no jardim, encontrei a Ana lá. A gente conversou um pouco, ouviu música… foi legal.
Marcos franziu levemente a testa, mas não disse nada.
— Aí… acho que fui idiota. Tentei ser engraçado, meio charmoso — falou a palavra com um sarcasmo amargo — e no fim, ela foi embora do nada. Como se eu tivesse passado dos limites.
Silêncio.
— E agora eu tô aqui, achando que talvez ela e você tenham… alguma coisa. E que eu fui um babaca.
Marcos apoiou os cotovelos nos braços da cadeira, pensativo. Depois de um momento, respirou fundo e falou, calmo:
— Pedro… eu e a Ana somos só amigos.
Pedro levantou os olhos, surpreso.
— Sério?
— Sério. Nunca rolou nada, nem vai. E se ela ficou incomodada com você hoje, não é por minha causa. Ela deve ter os motivos dela.
Pedro assentiu, mas ainda parecia inquieto.
— E você… tá bravo?
Marcos cruzou os braços e encarou o irmão por um momento mais longo.
— Com você? Não. Mas escuta uma coisa. Eu te conheço, Pedro. Eu sei que você gosta de flertar com qualquer garota que cruza o seu caminho e que às vezes você nem percebe o que tá fazendo. Mas com a Ana… não dá pra ser assim.
Pedro baixou os olhos.
— Eu não tava zoando, Marcos. Eu gostei mesmo de estar com ela. Foi diferente.
— Então prova isso. Porque se tem uma pessoa nesse mundo que eu não vou deixar ninguém machucar, é a Ana. Ela é… especial. Tipo, de verdade. A melhor amiga que eu já tive. E se um dia alguém quebrar o coração dela, esse alguém vai ter que se ver comigo… mesmo que esse alguém seja você.
Pedro respirou fundo, sentindo o peso daquelas palavras.
— Eu entendi.
Marcos deu um meio sorriso, menos tenso.
— Só seja sincero. Comigo, e com ela.
— Pode deixar, senhor certinho.
Marcos revirou os olhos, mas riu.
— Boa sorte, mano.
Pedro sorriu, agora mais aliviado.
Mas Marcos por dentro estava pensativo. Ana realmente era alguém importante pra ele. Tanto quanto o irmão.
♡ Primeiro ano de Marcos e Ana♡
A biblioteca estava silenciosa, como sempre nas semanas que antecedem as provas. Ana lia concentrada quando percebeu, ao lado, que Marcos não virava a página havia vários minutos. O rosto dele estava sério demais — mais do que o habitual — e os dedos seguravam o livro com força, como se tentassem se manter ancorados ali.
Ela o observou por mais um instante, então sussurrou:
— Tá tudo bem?
Marcos demorou um segundo para responder. Quando levantou os olhos, havia algo ali que ela nunca tinha visto antes: um lampejo nervoso nos olhos, como se a mente dele estivesse girando rápido demais.
— Só… muita coisa pra pensar — disse ele, a voz baixa, contida. — Provas, metas, pressão. Às vezes parece que se eu falhar, tudo desaba.
Ana fechou o próprio livro.
— Vem comigo — disse simplesmente, puxando-o pela mão sem dar tempo para recusar.
Levaram alguns minutos caminhando até o jardim nos fundos do prédio. Lá fora, o vento fresco e o som suave das árvores traziam outro ritmo. Ana sentou-se na grama e o convidou com um gesto. Marcos, ainda tenso, obedeceu.
— Respira comigo — disse ela. — Fecha os olhos e só respira. Devagar. Como se fosse a única coisa no mundo agora.
Ele fechou os olhos, aos poucos, acompanhando o ritmo dela. Por um momento, ficou apenas o som do vento, da respiração, da vida acontecendo mais devagar.

— Eu não sei o que me deu — ele disse depois de um tempo, os olhos ainda fechados. — Às vezes parece que todo mundo espera que eu seja forte o tempo todo. E eu finjo que sou. Mas tem horas que eu só queria parar.
Ana não disse nada de imediato. Apenas encostou o ombro no dele, num gesto leve, seguro.
— Você não precisa fingir comigo — falou. — Se quiser parar, para. Se quiser chorar, chora. Se quiser ficar quieto, eu fico com você.
Marcos assentiu em silêncio. Entendeu que tinha ao seu lado alguém com quem não precisava ser perfeito.
Quando o silêncio já não parecia mais pesado, Marcos abriu os olhos e encarou o céu por alguns segundos. A respiração estava mais calma, o corpo menos rígido.
— Obrigado — disse ele, com a voz um pouco mais firme. — Por me tirar de lá. Por perceber. Nem meus pais sabem que eu… que às vezes isso acontece.
Ana olhou para ele com suavidade, sem invadir o espaço que ele ainda mantinha.
— Agora eu sei. E quando acontecer de novo, você me chama. Ou nem precisa chamar. Se eu estiver por perto, eu vou notar.
Ele soltou um riso curto, quase surpreso.
— Você tem esse dom. De perceber as coisas mesmo quando ninguém fala nada.
Ana deu de ombros, como se não fosse grande coisa.
— É só que eu gosto de cuidar de quem é importante pra mim.
Eles estavam criando uma ligação de confiança que não se explica, só se sente.
— Vamos voltar? — perguntou ele depois de um tempo.
— Vamos. Mas só se prometer que vai respirar assim sempre que o mundo apertar.
— Prometo. Mas só se você prometer continuar por perto.
Ana sorriu.
— Combinado.
Eles voltaram para a biblioteca lado a lado, sem dizer mais nada, como se as palavras tivessem sido todas ditas no silêncio do jardim.
♡ Segundo ano de Ana e Marcos ♡
Marcos chegou ao Monte Vale bem cedo no primeiro dia de aula. Depois de deixar as malas no dormitório masculino, pegou o celular e avisou Ana de que estava indo encontrá-la em frente ao dormitório feminino. Tinha algo que precisava entregar.
Ana não fazia ideia do que era.
Por isso, quando saiu do prédio e o viu se aproximando, demorou alguns segundos para acreditar na cena.
Marcos carregava nos braços um enorme urso de pelúcia bege, quase grande o suficiente para esconder parte de seu corpo. Um laço marrom de cetim enfeitava o pescoço do bichinho.
Ana arregalou os olhos.

— Minha nossa! O que é isso, Marcos?
Ele parou diante dela e estendeu o urso como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Feliz aniversário atrasado, Lalitinha! Aqui está o seu presente.
Ana recebeu o urso com alguma dificuldade e imediatamente afundou os braços na pelúcia macia.
— Você ficou maluco? Olha o tamanho disso!
— Eu lembrei que você falou que era seu sonho de criança ter um urso gigante.
Ela ergueu os olhos para ele, surpresa.
— Você lembrou disso?
— Claro que lembrei.
Ana voltou a olhar para o urso, tentando conter o sorriso.
— Mas precisava ser tão grande?
— Precisava. — Marcos assentiu com convicção. — É pra compensar por eu não ter podido ir à sua festa de quinze anos. Eu estava viajando com a minha família.
— Você sabe que não precisava compensar nada, né?
— Agora já foi. Vai ter que arrumar um lugar pra ele no quarto.
Ana riu.
— Muito obrigada. De verdade. Eu não imaginava que você fosse se lembrar.
— Eu não ia esquecer uma coisa dessas.
Ana apertou o urso contra o corpo, sorrindo.
— Você é um ótimo amigo.
Marcos abriu um sorriso satisfeito.
— Eu sei.
— Convencido.
— Mas você acabou de dizer.
— Não precisava concordar tão rápido.
— Devolve o urso.
Ana imediatamente apertou a pelúcia contra o corpo.
— Nem pensar.
Marcos riu.
♡♡♡
Alguns dias depois, o refeitório estava especialmente cheio durante o almoço. O barulho das conversas se misturava ao som de talheres, cadeiras sendo arrastadas e grupos chamando uns aos outros de uma mesa para outra.
Ana havia acabado de deixar sua bandeja sobre uma das mesas quando Kevin, um veterano do terceiro ano que ela conhecia apenas de vista, se aproximou.
— Ana, né?
Ela olhou para ele.
— Sim.
— Kevin.
— Eu sei.
Ele sorriu e começou a conversar sobre as aulas e os professores. Kevin parecia simpático, e Ana se pegou gostando da atenção. Quando ele perguntou se ela queria sair com ele no fim de semana, sentiu uma pequena pontada de curiosidade.
— Sair?
— É. A gente podia conversar melhor.
Ana hesitou, mas acabou sorrindo.
— Talvez. O que você tinha em mente?
Kevin pareceu satisfeito.
— Ainda não sei. A gente decide depois.
Antes que Ana pudesse responder, ele se inclinou um pouco mais sobre a mesa.
— Só não vai aparecer com aquele seu guarda-costas rico, né?
O sorriso dela desapareceu.
— O Marcos?
— Vocês vivem grudados. Mas não se preocupe, eu não sou ciumento, você pode continuar com o cara que te banca e com o que te diverte. — ele se aproximou passando a mão no braço dela.
Ana cruzou os braços se desvencilhando do toque dele.
— Eu não gostei desse comentário.
— Foi só uma brincadeira.
— Não teve graça.
— Tudo bem, esquece isso, a gente ainda pode sair.
— Eu não quero mais sair com você.
— Tá bom, já entendi. Seu tipo é o Hoffmann. Deve ser bom ter um cara te dando presentes e essas coisas.
Ana o encarou, arrependida de ter considerado sair com ele.
— Eu não quero ficar com você porque não gosto de você. O Marcos não tem nada a ver com isso.
Kevin apoiou a mão sobre o encosto da cadeira dela.
— Você está levando isso a sério demais.

— Tira a mão.
— A gente podia sair, se divertir um pouco e você esquecer esse seu amiguinho rico por uma noite.
Ana sentiu o estômago se contrair.
— Eu disse que não quero.
Quando ela tentou o afastar, Kevin segurou seu pulso.
— Você devia ser mais educada com quem está tentando te dar uma chance, nerdizinha.
— Me solta.
— Ela já disse não.
A voz surgiu atrás deles.
Ana virou o rosto e encontrou Marcos parado a poucos passos, a expressão muito menos tranquila do que de costume.
Kevin soltou o pulso dela, mas não se afastou.
— Ah, agora apareceu o príncipe no cavalo branco pra salvar a princesa.
Marcos se aproximou.
— Você já foi longe demais.
— Eu só estava conversando com ela.
— Segurando o braço dela?
— Qual é? Não foi nada demais, ela que é dramática.
A mandíbula de Marcos se contraiu. Antes que Ana percebesse o que ele pretendia fazer, Marcos avançou e agarrou Kevin pelo colarinho.
— Repete.
— Marcos!
Ana segurou seu braço.
— Calma. Ele não vale a pena.
Marcos ainda encarou Kevin por alguns segundos antes de soltá-lo.
— Se ela disser não, você para. Entendeu?
Kevin ajeitou a camisa, lançando um olhar irritado para os dois.
— Vocês se merecem.
— Vai embora, Kevin — Ana disse, com a voz firme.
Ele pareceu prestes a responder, mas desistiu ao perceber que algumas pessoas começavam a observar a cena. Pegou a bandeja e se afastou, resmungando.
Ana pegou suas coisas e saiu do refeitório. Marcos foi atrás dela.
Durante parte do caminho, nenhum dos dois disse nada. Ana ainda estava irritada com o que havia acontecido, e Marcos parecia tentar controlar a própria raiva.
Foi ele quem finalmente rompeu o silêncio.
— Então é verdade?
Ana olhou para ele, confusa.
— O quê?
Marcos assumiu uma expressão séria demais para ser convincente.
— Você só é minha amiga pelo dinheiro?
Ana deu um soco de brincadeira no braço dele.
— Idiota.
Marcos riu, e parte da tensão desapareceu.
Eles continuaram caminhando, mas Ana logo ficou séria novamente.
— Só pra deixar claro… eu não te vejo desse jeito.
— Desse jeito?
Ela lançou um olhar impaciente para ele e acertou outro soco em seu braço.
— Você entendeu. Tipo… como namorado.
— Ah, claro. Você deve ver o Kevin como namorado.
Ana ergueu o punho novamente, mas dessa vez Marcos se protegeu antes que ela pudesse acertá-lo.
— Calma! Desse jeito você vai deixar meu braço roxo.
Ela soltou uma risada irônica.
— Até parece. Não deve fazer nem cócegas em você.
Marcos abaixou os braços, ainda sorrindo.
Ana também sorriu, mas a expressão durou pouco. Depois de alguns passos em silêncio, ela baixou os olhos.
— Você está bem?
Ana olhou para o próprio pulso. A marca dos dedos de Kevin começava a desaparecer, mas ainda havia uma leve vermelhidão.
— Estou.
Marcos percebeu o movimento.
— Ele machucou você?
— Não foi nada.
— Ana.
Ela parou de andar e suspirou.
— Eu só fiquei desconfortável. Não achei que ele fosse fazer isso.
Marcos fechou as mãos ao lado do corpo.
— Eu devia ter chegado antes.
— Você não tinha como saber.
— Mesmo assim.
Ana tocou de leve o braço dele.
— Marcos, eu estou bem.
Ele respirou fundo, tentando se acalmar.
— Eu só… não sei lidar muito bem com essas coisas.
Marcos percebeu a mudança em seu tom.
— Que coisas?
— Isso. Garotos, encontros… essas coisas. — Ela hesitou antes de completar: — Eu nunca namorei ninguém.
Marcos parou por um instante.
— Nunca?
— Nunca.
— Tipo… nada, nada?
— Nada, nada.
— Caramba. Você vive tanto no meio dos livros que esqueceu dessa parte da adolescência?
Ana ergueu uma sobrancelha.
— Olha quem fala. O garoto que passa metade da vida estudando.
— Ei, eu já namorei, lembra? E você sabe muito bem por que eu não quero namorar mais ninguém por enquanto.
O sorriso de Ana diminuiu.
— Desculpa. Não toco mais nesse assunto… — Ela lembrou que ainda estava irritada. — Mas você também tem que prometer que não vai mais me zoar por ser BV.
Marcos riu.
— Tá bom. Prometo… senhorita BV.
Ana sentiu o rosto esquentar e acelerou o passo, irritada e envergonhada.
Marcos riu e foi atrás dela. Com as pernas muito mais longas, não demorou para alcançá-la.
— Espera, Lalitinha! Eu tô brincando.
— Muito engraçado.
— Foi um pouco.
Ela lançou um olhar mortal para ele.
— Tá, tá. Desculpa. — Marcos levantou as mãos em rendição. — Mas fica tranquila. Você sabe que pode confiar em mim.
Ana revirou os olhos, mas depois deu um sorriso em concordância.
— Uma hora vai aparecer o garoto certo pra você — continuou ele. — E ele vai ser um cara legal… Tipo eu.
Ana virou o rosto para encará-lo.
— Convencido.
— Mas não vai ser eu — ele acrescentou imediatamente. — Porque isso seria muito esquisito.
Ana fez uma careta.
— Muito.
— Obrigado pela delicadeza.
Ela riu.
— E também não vai ser um babaca como o Kevin — completou Marcos.
Dessa vez, Ana ficou em silêncio por alguns segundos.
— Nem sei como deveria ser quando eu realmente gostar de alguém.
Marcos deu de ombros.
— Acho que você vai saber quando acontecer.



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