Cálculos, Conexão e Amizade
Ana caminhava lentamente pelos corredores do dormitório. A luz amarelada do entardecer atravessava as janelas altas, pintando o chão com sombras douradas. Tudo estava tranquilo, mas a mente dela não. Desde o momento em que se despediu de Pedro, algo parecia remexer por dentro.
Quando finalmente chegou ao quarto, sentou-se na cama, abraçando os joelhos. O coração ainda estava meio agitado, como se não tivesse entendido que a conversa com Pedro já tinha acabado.

Era estranho estar pensando nele. Irmão do Marcos. O Marcos. Seu melhor amigo.
Ela nunca pensou em Marcos assim. Ele era seguro, previsível, gentil. Sempre soube o que esperar dele. E talvez por isso mesmo, nunca sentiu esse frio na barriga, essa inquietação.
Pedro, por outro lado… era um furacão de espontaneidade. E justamente isso era o problema.
Ele é irmão do Marcos, ela pensou, quase como uma tentativa de se convencer. Isso pode ser complicado.
Deitou-se de lado na cama, olhando para o teto, enquanto o pensamento martelava: Marcos pode achar estranho. Ele nunca ligou para essas coisas, mas… e se agora ligar?
Suspirou. Talvez fosse melhor manter uma certa distância. Talvez aquilo fosse só curiosidade. Ou confusão. Ou o efeito de uma tarde ensolarada e uma música dividida em um fone de ouvido.
Fechou os olhos e tentou se concentrar no que tinha para fazer naquela noite. Mas a imagem dos olhos verdes e daquele sorriso debochado continuava invadindo o silêncio como um refrão difícil de esquecer.
Por mais que tentasse afastar Pedro dos pensamentos, a comparação com o irmão parecia inevitável.
Marcos nunca tinha causado aquele tipo de confusão nela. Desde o começo, o que existira entre os dois havia sido diferente.
Ana sorriu ao se lembrar da primeira vez que o vira, dois anos antes, justamente em uma aula de matemática.
♡ 2 anos atrás, primeiro dia de aula de Ana na escola ♡
A primeira aula de matemática do ano mal havia começado quando a professora entrou com um brilho animado nos olhos e uma pilha de folhas nas mãos.
— Nada de moleza hoje — ela anunciou, enquanto distribuía os papéis virados para baixo. — Vocês receberam um desafio matemático. Quando eu disser “já”, podem virar as folhas e começar.
Os alunos se entreolharam, alguns com curiosidade, outros com um suspiro resignado. Ana Laura, no entanto, sentiu o coração acelerar. Desafios a empolgavam — especialmente os de matemática. Ela se ajeitou na cadeira, organizou os lápis e esperou o sinal com os olhos atentos.
— Já!
O som de folhas virando preencheu a sala, seguido pelo silêncio da concentração. Alguns franziram a testa; outros começaram a rabiscar, tentando encontrar um caminho para resolver o problema. Marcos, um rapaz loiro de olhos verdes, sentado na fileira ao lado da de Ana, ajeitou os óculos e inclinou-se sobre a folha com a mesma seriedade de quem tentava decifrar um enigma de vida ou morte.
Ana percebeu que ele, assim como ela, não estava disposto a desistir. Um fio invisível de rivalidade se formou entre os dois. Ambos eram extremamente competitivos e pareciam reconhecer no outro um adversário à altura.

Minutos depois, quase ao mesmo tempo, levantaram as mãos com as folhas preenchidas. A professora recolheu as respostas, analisou-as por alguns segundos e sorriu.
— Temos um empate. Os dois resolveram corretamente. Parabéns. Vamos fazer um desempate?
O desafio agora seria no quadro. A professora escreveu um novo problema, mais complexo. Ana e Marcos se posicionaram lado a lado, cada um com uma caneta marcadora. A turma observava, curiosa e animada, como se fosse um duelo.
Começaram a resolver ao mesmo tempo. Ana respirava fundo, concentrada, enquanto Marcos mantinha os olhos fixos no quadro, com traços firmes e rápidos.
Quando ela estava escrevendo o último número, ouviu-o dizer:
— Terminei.
A professora conferiu rapidamente e sorriu, entregando-lhe um chocolate.
— Vitória do Marcos.
Ana fez uma careta de surpresa, mas sorriu em seguida. Era bom, na verdade, encontrar alguém que a desafiasse de verdade. Ela cruzou os braços e riu.
— Isso foi por segundos!
— Vitória é vitória — respondeu ele, rindo.
♡♡♡
No período seguinte, durante a aula de história, a professora também propôs um jogo para o primeiro dia, misturando os alunos em duplas para se conhecerem melhor. Ana e Marcos acabaram formando uma dupla.
Ela olhou para ele e disse:
— Você de novo?! Parece que os rivais viraram aliados, hein?
— Pelo menos é com alguém quase tão boa quanto eu — respondeu Marcos.
— Quase?! Você só ganhou por dois segundos — rebateu Ana, fingindo indignação.
Ele respondeu com um sorriso e um leve encolher de ombros, carregado de deboche.
O desafio consistia em perguntas rápidas de raciocínio lógico. Eles se revezavam respondendo e completando as frases um do outro com uma naturalidade impressionante. No final, venceram com folga.
— Que dupla imbatível! — disse a professora, aplaudindo com entusiasmo.
Sem pensar, Ana e Marcos levantaram as mãos e bateram uma palma sincronizada, como se fossem parceiros de longa data. A rivalidade entre eles continuava, mas agora havia algo mais: um laço silencioso, divertido e crescente que começava a se formar.
Quando saíram da sala, ainda trocando provocações, Marcos estendeu o chocolate para ela.
— Toma. Você merecia tanto quanto eu.
— Vai me dar o prêmio?
— Sim. Vai que melhora seu humor na próxima disputa.
Ela pegou o chocolate com um sorriso.

— Só vou aceitar porque não consigo recusar chocolate.
— Mas eu admito, você é boa mesmo — disse ele.
— “Boa”? Eu sou excelente — respondeu Ana, empinando o queixo com falsa arrogância. — Mas vou deixar você ficar com essa vitória só porque você parece precisar.
— Ah, então é assim que vai ser?
— Rivalidade saudável. — Um sorriso brincou no canto de sua boca.
Foram caminhando juntos pelo corredor em direção ao refeitório, ainda trocando provocações bem-humoradas. A conversa fluía com uma naturalidade surpreendente. Falavam sobre os professores, a escola, os desafios, os livros de que gostavam, as matérias preferidas… e descobriram que tinham muito mais em comum do que imaginavam.
Marcos era mais reservado, mas, perto dela, parecia se soltar aos poucos. Ana, animada e curiosa, ia puxando assunto atrás de assunto, sem forçar. Ele gostava disso. Gostava de como ela não tentava agradar ninguém — ela simplesmente era ela mesma. De maneira natural, os dois passaram a se sentar próximos em algumas aulas, a trocar anotações e, com o tempo, a dividir confidências nos intervalos.
Logo, já era comum ver os dois juntos no refeitório ou na biblioteca. Ela ria das piadas sarcásticas dele; ele admirava a forma como ela explicava matemática como se fosse algo simples e divertido. A amizade, embora recente, tornou-se sólida rapidamente.
Até que, algumas semanas depois, Marcos recebeu um bilhete durante a aula de física:
Quer estudar comigo pro simulado hoje à tarde, Senhor Certinho?
— Ana
Ele sorriu e respondeu com um rabisco apressado:
Claro. Prepare-se pra perder de novo.
Olhou para ela de canto, e os dois sorriram como quem partilhava um segredo. A verdade é que, por mais que fingissem ser rivais, nenhum dos dois se importava em perder para o outro. No fundo, sempre se viram mais como um time do que como adversários.
Entre livros, cálculos e piadas discretas, nascia uma amizade forte. Daquelas que mudam tudo.
Ana abriu os olhos lentamente.
O quarto continuava silencioso, banhado pela luz dourada do fim da tarde. Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel, presa à lembrança de dois anos antes.
Com Marcos, tudo havia começado de maneira simples: uma competição, algumas provocações e a descoberta de que funcionavam bem juntos. A amizade tinha vindo antes de qualquer outra coisa, construída aos poucos, com segurança e confiança.
Com Pedro, era diferente.
Não havia segurança. Não havia previsibilidade. Havia apenas aquela inquietação insistente, o coração acelerado e a sensação de que alguma coisa estava começando antes mesmo que ela soubesse o que fazer a respeito.
Ana suspirou e se sentou na cama.
Talvez manter distância fosse mesmo a melhor escolha.
Mas, pela primeira vez, ela não tinha certeza de que conseguiria.



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