Risos, Medo e Distância
Logo no primeiro dia de aula, Marcos já havia sido escolhido como representante de turma. Naquela tarde, ele teria uma reunião com os outros representantes das turmas de terceiro ano para decidir alguns eventos do último ano. Ana resolveu estudar sozinha no jardim do colégio.
O clima estava ameno, o céu azul-claro, e a brisa fazia as folhas das árvores sussurrarem de leve. Com os fones no ouvido e um marca-texto na mão, ela se concentrava em um resumo de biologia, sentada na grama, escorada no tronco de uma árvore.
De repente, ouviu uma voz atrás dela:
— O ano mal começou e você já está estudando que nem louca? Você deve ser mais nerd que o meu irmão.
Ela olhou surpresa, tirando os fones. O rapaz de olhos verdes e cabelo loiro dourado estava escorado na árvore, observando-a de cima, com um sorriso debochado. O uniforme levemente desalinhado e uma bola de basquete debaixo do braço completavam a cena.

Por um segundo, Ana ficou sem reação. Era como olhar para uma versão ensolarada de Marcos, só que mais descontraída, mais… sorridente. Havia algo nele que fazia o tempo parecer andar um pouco mais devagar.
— Ninguém é mais nerd que o seu irmão, Pedro — ela respondeu, tentando recuperar o controle da própria voz.
Ele sorriu. E que sorriso…
— Você realmente gosta de estudar, hein?
— Gosto. Diferente de certas pessoas que provavelmente só abrem um livro quando o Marcos manda.
— Ei! — ele protestou, levando a mão ao peito. — Eu estudo.
Ana ergueu uma sobrancelha.
— Estuda?
— Às vezes.
Ela riu.
— Sabia.
Pedro balançou a cabeça, fingindo indignação.
— O pior é dividir o quarto com ele. Você não faz ideia. Já era ruim quando ele tentava controlar minha bagunça em casa, e olha que lá temos quartos separados. Imagina agora que estamos no mesmo quarto.
— O Marcos é tão organizado assim?
— Organizado? Ele tem um problema sério com bagunça. Se eu deixo uma camiseta fora do lugar, ele já começa: “Pedro, você vai guardar isso?” “Pedro, não deixa seus tênis no meio do quarto.” “Pedro, não deixa a mochila jogada.”
Ana começou a rir.
— É a cara dele.
— Pois imagine. É assim todos os dias. Às vezes acho que ele esquece que é meu irmão e acha que é meu monitor.
— Talvez ele só esteja tentando manter o quarto habitável.
— Você está do lado dele?
— Sempre.
Pedro fez uma expressão ofendida.
— Inacreditável. Conheci você hoje e já perdi uma aliada.
Ana riu novamente.
— Ah, nem deve ser tão ruim. Você que só sabe reclamar.
— Reclamo mesmo. — Pedro riu de si mesmo. — Mas é bom ter alguém conhecido por perto. Mesmo que ele seja um chato.
Pedro pegou a bola de basquete e a girou entre as mãos.
— E você? Como é dividir o quarto com outra pessoa?
Ana pensou por um instante.
— No primeiro ano eu fiquei com a Kayla. Ela era do terceiro ano e foi muito legal comigo. Me ajudou a entender como tudo funcionava por aqui. Nós ficamos bem próximas. Ela era tipo minha irmã mais velha.
— E ela saiu?
— Se formou. Foi fazer um programa de voluntariado fora do país.
— Uau. Então você ficou sem sua irmã mais velha.
Ana sorriu.
— Mais ou menos. No segundo ano colocaram a Gabi no meu quarto.
Pedro fez uma pequena careta.
— Gabi?
— Você já conhece?
— Se você está falando da garota engraçada que parecia ter ganhado na megasena quando viu meu irmão hoje de manhã, sim, eu conheço… — ele riu com deboche. — Mas ela é uma boa colega de quarto?
— Bem… ela é… diferente da Kayla.
— Isso parece uma descrição diplomática.
Ana riu.
— Ela é divertida. Extrovertida. Só que às vezes fala o que pensa sem perceber que pode magoar alguém.
— E vocês se dão bem?
Ana demorou um segundo antes de responder.
— Às vezes.
Pedro percebeu a hesitação, mas não insistiu.
— Então acho que você também teve que aprender a conviver com alguém.
— Acho que sim.
— Pelo menos agora você sabe que poderia ser pior.
— Como?
— Poderia ser obrigada a dividir o quarto com o Marcos.
Ana soltou uma gargalhada.
— Isso seria estranho.
— Viu? Finalmente alguém entende meu sofrimento.
Ana riu.
Pedro ficou alguns segundos olhando para ela rir. Quando percebeu que estava encarando, desviou os olhos e apontou para o caderno.
— Precisa de ajuda com isso?
— Obrigada, mas estou indo bem. Só estava revisando.
— Ah, então posso ficar aqui só para fazer comentários espirituosos enquanto você estuda?
— Vai depender do nível de humor. E do silêncio entre os comentários — rebateu ela, já rindo.
Pedro apoiou o queixo na mão e olhou para ela com um fingido ar sério.
— Certo. Prometo ser engraçado no volume mínimo. E só interromper para dizer coisas importantes. Tipo que você tem pinta de ser a senhorita certinha, como o meu irmão, mas algo me diz que é bem mais divertida que ele.
Um rubor subiu por seu rosto, mas ela sorriu.
— E você tem pinta de quem só vem para a aula por causa da educação física. Deve ser um daqueles fanáticos por futebol ou outro esporte.
— Está me chamando de atleta burro?! — protestou ele, ofendido de brincadeira. — O que eu posso fazer se nasci com o dom de ser bom em tudo, inclusive nos estudos? Embora o esporte seja bem mais divertido.
— Ah, está bom. E também nasceu super humilde, né? Nem um pouco convencido?
— É sério! O dia que você me vir jogando, vai ver o quanto sou bom.
Ela balançou a cabeça, divertindo-se mais do que gostaria de admitir.
Naquele instante, Pedro pareceu perceber que tinha causado uma boa impressão. Não forçou mais nenhuma brincadeira. Apenas apontou para um dos fones dela.
— Posso?
Ana hesitou por um instante, mas entregou um deles.
Pedro deitou-se na grama, apoiando a cabeça na bola, e ficou olhando para o céu azul, observando os pássaros e o passar das nuvens, respeitando o ritmo calmo do momento. Ana continuou estudando, mas bem mais distraída agora — não conseguia parar de notar como Pedro se divertia com suas músicas.

Alguns minutos se passaram assim, em silêncio. Pedro mexia os pés no ar como se dançasse com as nuvens, e Ana, apesar de fingir que lia, relia o mesmo parágrafo havia pelo menos cinco minutos. Os dois compartilhavam uma música tranquila, com um violão suave ao fundo.
— Ei — disse Pedro de repente, ainda deitado, sem olhar para ela —, você já percebeu que estudar com alguém legal por perto faz o tempo passar mais rápido?
Ana virou a cabeça na direção dele, arqueando uma sobrancelha.
— Eu estava estudando sozinha. Você só apareceu.
Ele sorriu de novo, preguiçoso, mas genuíno.
— E não é estranho como certas pessoas aparecem sem a gente esperar e deixam tudo mais divertido?
Ana sentiu as bochechas esquentarem. Fingiu buscar algo na mochila para disfarçar.
— Talvez o clima mude quando alguém traz uma bola de basquete para uma sessão de estudos — disse, tentando manter o tom leve.
Pedro soltou uma risada baixa e voltou a olhar para o céu.
— Também pode ser.
A música ainda tocava nos fones compartilhados, como trilha sonora de um momento que Ana sabia que lembraria depois.
Ana fechou o caderno no colo, sem perceber. A música havia mudado para algo um pouco mais animado, mas ainda suave. Pedro olhou de canto, notando o gesto.
— Desistiu da biologia? — perguntou.
— Só… dando um intervalo estratégico — respondeu ela, mexendo no marca-texto que ainda segurava.
— Estratégico. Gostei da palavra. — Ele rolou na grama até ficar de barriga para cima novamente. — Sabe o que mais pode ser estratégico?
— Tenho medo de perguntar — disse Ana, sorrindo de lado.
— Uma pausa para jogar basquete.
Ela riu.
— Eu não sei jogar basquete.
— Eu ensino. Pode ser divertido.
— Eu sou um desastre com bola, Pedro. Literalmente. Eu tropeço, derrubo coisas, posso até acertar alguém por acidente.
— Perfeito. Então a gente começa pelas regras básicas de sobrevivência. Primeira lição: não jogar a bola na direção de alguém legal, que nem eu.
Ana riu de novo, agora mais solta. Ela já tinha voltado a abrir o caderno, mas apenas passava os dedos pelas folhas. Pedro se sentou, abraçando os joelhos.
— Sabe… você tem cara de quem sempre quer fazer tudo certo.
Ela franziu o cenho, surpresa.
— E isso é ruim?
— Não, é só… às vezes dá para deixar a vida te surpreender um pouco. Nem tudo precisa estar sob controle. Às vezes, as melhores partes vêm do improviso.
Ana mordeu o lábio inferior, pensativa. Era estranho ouvir aquilo de alguém que ela mal conhecia, mas que parecia já entender algo dela que nem todos viam.
— E você vive no improviso, é isso?
— Quase sempre. — Ele deu de ombros. — Mas, quando gosto de algo, tento fazer direito.
Ela o olhou com uma expressão curiosa.
— E já gostou de alguma coisa a ponto de querer “fazer direito”?
Pedro virou o rosto na direção dela. Os olhos verdes se fixaram nos dela, agora com uma sinceridade que a desarmou completamente.
— Talvez.
— Talvez o quê?
Pedro abriu a boca, mas hesitou. A resposta parecia ter surgido antes que ele pudesse pensar nela.
— Talvez eu esteja pensando em descobrir.
Ana desviou os olhos. A conversa havia deixado de parecer apenas uma brincadeira, e ela não sabia muito bem o que fazer com aquilo.
O coração deu uma batida mais forte, inesperada. Ela fechou o caderno depressa e começou a guardar as coisas na mochila.
— Bem, talvez outro dia. Agora tenho que voltar para o dormitório. E você pode ir para onde estava indo com a sua bola.
— Ana…
— A gente se vê. Tchau.
Ela saiu quase fugindo dali.
Pedro continuou sentado na grama, encarando o céu, mas sem ver nada. As nuvens passavam lentas, como se zombassem da bagunça em sua cabeça.

Será que passei dos limites?
Ele tinha achado que ela estava entrando no clima. Ela ria, respondia às piadas e parecia confortável. Mas, de repente, foi embora rápido demais.
Será que ela gosta do Marcos?
A pergunta o atingiu como um chute no estômago. Ana e Marcos pareciam ser apenas amigos, mas e se ele tivesse interpretado tudo errado? E se houvesse algo entre os dois que Pedro ainda não tinha percebido?
— Parabéns, Pedro — murmurou para si mesmo. — Agora você é o idiota que dá em cima da mina do irmão. Bonito, hein?
A vergonha subiu quente ao rosto.
E se Marcos descobrir? E se Ana comentar com ele?
Pedro cobriu o rosto com o braço, tentando sufocar o arrependimento que crescia.
Você estragou tudo. Parabéns.



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