Prólogo – O começo
Marcos
— … E a primeira vez que os vi juntos, no primeiro dia de aula do meu terceiro ano… — ele fez uma pausa, o olhar perdido brevemente no passado — …eu soube. Soube que aquele olhar que trocaram dizia mais do que anos de convivência. E que o que existia entre eles não era só atração ou amizade. Era algo mais. Era complemento.
Um Sorriso, Um Olhar e Um Coração Acelerado
O primeiro dia de aula do terceiro ano amanheceu ensolarado, como se o céu também estivesse empolgado com o recomeço. Ana Laura chegou cedo, como sempre, e foi direto para o jardim onde sabia que Marcos a encontraria. Ela chegara naquela manhã ao internato, diferente dos anos anteriores, quando costumava chegar um dia antes. Nem chegou a desfazer as malas, estava ansiosa para rever o melhor amigo e conhecer seu irmão mais novo, o menino bochechudo da foto que Marcos havia lhe mostrado.
Ela sentou em um banco de madeira, ajeitou o cabelo, cruzou as pernas e observou os colegas passando aos poucos, rostos conhecidos e outros novos. Respirou fundo, pronta para mais um ano, o último, o mais importante.
Estava distraída observando alguns pássaros quando sentiu duas mãos cobrindo seus olhos por trás.
— Adivinha quem é?
Ela sorriu imediatamente.
— Senhor Certinho — respondeu sem hesitar, usando o apelido carinhoso que tinha inventado no primeiro ano.
Virou-se e, antes mesmo de vê-lo, abriu os braços. Marcos apareceu com um sorriso e havia um brilho caloroso em seus olhos. Ele a abraçou forte e a tirou levemente do chão, surpreendendo-a.
— Você cresceu mais um palmo! — ela riu, quando ele a colocou de volta no chão.
— E você continua do mesmo tamanho, Lalitinha — provocou ele, bagunçando de leve o cabelo dela.

Ana ia responder com alguma piada sobre “gigantes desajeitados”, mas parou no meio da frase quando viu quem estava logo atrás de Marcos.
Um rapaz de sorriso fácil e olhos verdes, muito semelhante ao irmão, mas com uma luz completamente diferente. Mais aberto, mais vivo. Ele tinha o mesmo cabelo dourado, mas usava de um jeito despreocupado. Estava parado com a mochila pendurada de um ombro e o olhar fixo nela, como se a estudasse.

Ana sentiu o coração tropeçar dentro do peito.
— Esse é o Pedro, meu irmão mais novo. Vai começar o primeiro ano hoje — apresentou Marcos.
— Oi — disse Pedro, com o sorriso mais lindo que Ana já tinha visto.
— Meu nome é Ana Laura Rodrigues, é um prazer finalmente te conhecer, Pedro… — Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo.
— Só Pedro Hoffmann mesmo, sem nome composto — respondeu, sorrindo. Mas então ele pegou sua mão e se aproximou para cumprimentá-la com um beijo no rosto, como se fosse a coisa mais natural do mundo, o que a deixou corada.
Marcos arqueou uma sobrancelha, curioso com o clima estranho que se formou de repente, mas preferiu não comentar.

— Marcos me falou de você. Só não avisou que você era tão… pequena — zombou Pedro.
Ele era mais alto que ela, embora ainda não tivesse alcançado a altura do irmão.
Ana piscou, ainda tentando organizar os pensamentos.
— E você é… muito parecido com ele — foi tudo o que Ana conseguiu dizer.
Pedro riu, um som leve, divertido.
— Melhor maneira de começar o ano: sendo comparado com o mais certinho da escola.
— Você não parece ser certinho como ele — murmurou Ana, mais para si mesma, mas eles não ouviram porque Marcos convidou o irmão para sentar e Ana sentou ao lado de Marcos.
Pedro se acomodou do outro lado do irmão, mas seus olhos, vez ou outra, voltavam para Ana. Enquanto Ana fingia estar concentrada nas novidades de Marcos, o coração ainda batia um pouco rápido demais.

Marcos, alheio ao turbilhão silencioso, começou a explicar a Pedro como funcionavam os horários da escola, quais professores eram mais exigentes e quais as melhores opções no refeitório. Ana, aos poucos, foi se permitindo escutar a conversa, até soltar um comentário aqui e ali.
— A professora de literatura é maravilhosa, mas se você esquecer o livro uma vez, já era — disse ela.
— Bom saber, obrigado pela dica — respondeu Pedro, piscando para ela.
Nesse momento Marcos começou a mexer na mochila e tirou de dentro dela uma caixa bonita de presente e entregou a Ana.
— Feliz aniversário atrasado!
Ana olhou para a caixa.
— O que é isso?
— Seu presente.
— Meu aniversário foi em janeiro, Marcos.
— Pois é, é tão chato você fazer aniversário dia 7 de janeiro, a gente tá sempre viajando nessa época.
Ela abriu a caixa e encontrou um cartão simples escrito: “Feliz aniversário, Lalitinha!”, uma câmera Polaroid, várias caixas de refil para a câmera e uma caixa elegante de bombons.

— Uau! — ela exclamou, surpresa. — Você me conhece mesmo! Obrigada, Marcos!
Pedro observou os dois por um instante, curioso com a intimidade entre eles, mas não comentou nada.
— Claro que conheço. Tem bastante refil para a máquina, mas use com moderação.
Pedro pegou a câmera da caixa, curioso.
— Já que tem tanto refil, precisamos testar.
— Pedro, espera, eu nem sei como usa isso ainda — protestou Ana.
— Deve ser só apertar aqui. Vem, Marcos.
Antes que os dois pudessem dizer não, Pedro se aproximou, esticando o braço com a câmera virada para eles. Marcos mal teve tempo de se inclinar para caber no enquadramento e Ana acabou espremida entre os dois.
— Isso vai ficar horrível — Marcos reclamou.
— Confia no fotógrafo.
O clique veio no mesmo instante em que Ana começou a rir.
A fotografia saiu da câmera e Pedro a pegou, satisfeito.
— Pronto. Primeira foto do ano.
— Primeira foto da câmera — Ana corrigiu.
Pedro olhou para ela, sorrindo.
— Melhor ainda.
Ao colocar a câmera de volta na caixa, Pedro avistou o outro presente.
— Huum… bombons…
Mas Marcos o interrompeu antes que ele pudesse pegar um:
— Ei! Tira a mão. São da Ana! Dezesseis bombons, um para cada um dos seus dezesseis anos de vida.
— Espera — Pedro se meteu na conversa. — Dezesseis?
— É.
Pedro franziu a testa.
— Você tem dezesseis?
— Fiz em janeiro.
Ele olhou para Marcos, depois para ela.
— Mas você tá no terceiro ano.
— Porque ela é um gênio e está um ano adiantada — informou Marcos.
Pedro fez uma expressão de surpresa.
— Uau! Você pulou uma série?
— Quando era criança. E para de chamar isso de coisa de gênio. — Ela fez cara de brava para Marcos.
— Já que você é um gênio, poderia me ajudar, né? Sabe, eu não consigo aprender nada com o meu irmão. Ele é tedioso demais. — Pedro fez sua melhor expressão suplicante.
Ela o olhou, sem saber se ria ou franzia a testa.
— Primeiro: eu não sou um gênio. Segundo: eu não prometo nada.
— Mas você parece ser do tipo que não deixa ninguém na mão — rebateu ele com um sorriso rápido.
Ana mordeu o canto do lábio e virou o rosto, mas não conseguiu conter o sorriso tímido.
— Então a gente tem quase a mesma idade — Pedro disse com entusiasmo, como se aquilo fosse algo muito bom para ele.
— Você só faz dezesseis em outubro. — Marcos rebateu.
— Outubro tá logo aí — Pedro fez uma cara de despreocupado.
— Que dia de outubro? — Ana perguntou, tentando não parecer curiosa.
— Dia 13, um dia depois do Dia das Crianças — Pedro respondeu.
— Sim. O meu presente atrasado foi esse pirralho — Marcos falou com deboche.
— O melhor presente que você podia ganhar — Pedro rebateu, tentando bagunçar o cabelo arrumadinho do irmão.
Ana não conseguiu evitar rir dos dois irmãos. Era impossível ignorar aquele jeito leve e espontâneo de Pedro, tão diferente da seriedade de Marcos. Os dois eram como versões paralelas: Pedro era sol; Marcos, lua. Apesar das provocações, pareciam se dar muito bem.
O sinal tocou e eles começaram a se dirigir para suas salas.
— Até mais, Ana Laura Rodrigues — disse Pedro, fazendo questão de pronunciar o nome completo.
Ela apenas acenou, tentando manter a compostura enquanto o rapaz se afastava.
Antes de seguir para a sala, Ana lembrou-se da Polaroid e a tirou da caixa. A imagem finalmente havia aparecido.
Marcos estava meio inclinado para caber no enquadramento, Pedro sorria orgulhoso de sua primeira selfie e ela aparecia espremida entre os dois, rindo de olhos quase fechados. A foto estava um pouco torta e parte do cabelo de Marcos havia ficado de fora.

Ana sorriu.
Não era uma foto perfeita. Mas, por algum motivo, gostou dela mesmo assim.
Guardou-a cuidadosamente dentro da caixa.
— Lalitinha! A gente vai se atrasar! — Marcos chamou de longe.
— Já vou!
Ana correu para alcançá-lo, levando consigo a primeira fotografia daquele que prometia ser um ano diferente.



Deixe um comentário