Arremessos, Risos e Olhares
Depois que voltaram para a escola, o fim do ano parecia cada vez mais próximo — e o tempo livre deles, cada vez menor. As provas finais, os preparativos para a formatura, o ENEM e os vestibulares, especialmente o da federal, dominavam as conversas e as preocupações.
Ana e Marcos estavam focados na tão sonhada vaga em Medicina. Ana e Pedro, por outro lado, mal conseguiam conversar. A correria dos estudos parecia ter colocado o que havia entre eles em pausa.
Mas, depois do vestibular, Ana finalmente teve um momento livre numa tarde inesperada. E, com o coração inquieto, sentiu vontade de aproveitar esse tempo… com Pedro. Só não sabia como chamá-lo. Tinha vergonha. Acabou recorrendo a Marcos. Digitou no celular:
Oi, Marcos, tudo bem?
Você sabe se o Pedro tá livre agora?
A resposta veio rápida:
Oi, cunhada kkk
Acho que ele tá na quadra de basquete
Ana hesitou antes de responder:
Será que não vai ser estranho eu aparecer lá do nada?
Ele respondeu com sarcasmo divertido:
Não, Lalitinha. Imagina!
Só a pessoa que sempre evitou a área esportiva do colégio aparecendo de repente na quadra.
Bem sutil.
Nossa, você tá ajudando muito, hein?
Relaxa.
Vai só deixar claro o seu verdadeiro interesse.
Acho que é exatamente isso que me dá vergonha.
Seja corajosa, Ana Laura Rodrigues.
Agora é a hora.
Ana se levantou, indecisa. Experimentou um vestido. Trocou por uma calça jeans e uma camiseta básica — afinal, era uma quadra de basquete. Passou maquiagem leve, mas achou exagerado, então tirou tudo e deixou só um rímel e um hidratante labial. Suspirou. Olhou o relógio.
— Ai, meu Deus, demorei demais. Tomara que ele ainda esteja lá.
Saiu quase correndo.
O sol já começava a se pôr, tingindo o céu com tons alaranjados. Os últimos raios de luz atravessavam a quadra semiaberta, refletindo no cabelo dourado de Pedro, que treinava arremessos sozinho. Ela o avistou e parou por um momento, tentando tomar coragem. Ele ainda não a tinha notado.

— Oi — disse ela, por fim. — Acho que você me deve uma aula de basquete.
Pedro se virou, surpreso. Por um instante, ficou parado, sem saber se era real. Depois, abriu um sorriso largo.
— Na verdade, você que ficou me devendo a oportunidade de te ensinar desde o primeiro dia de aula. Mas que bom que você vai finalmente me pagar.
— Nossa, você ainda lembra que foi no primeiro dia de aula?
— Eu lembro de tudo — disse ele, jogando a bola em direção a ela de surpresa. Ana tentou pegar, mas se atrapalhou. A bola bateu de leve em seus dedos e escapou.
— Ai! — soltou, rindo e sacudindo a mão.
Pedro correu até ela, preocupado.
— Desculpa! Eu achei que você ia pegar… Foi mal, Ana! Machucou?
— Tá tudo bem — respondeu ela, ainda sorrindo. — Eu tô acostumada. As bolas me odeiam.
— Isso é porque vocês não se conhecem direito — disse ele, pegando a bola no chão. — Permita-me apresentá-las. Ana Laura, essa é a bola de basquete. Bola de basquete, essa é a Ana Laura. E, se você machucar ela de novo, eu juro que te furo.
Ana caiu na risada.
— Como você é bobo.
— Mas é sério. Você precisa conhecer a bola. Sinta o peso, a textura. Quando tiver ideia da força que ela faz ao ser arremessada, vai saber com que força deve recebê-la.
— Isso é física.
— Exatamente, garota nerd. Física. E olha que hoje eu tava mais interessado em química…
Ele murmurou a última frase, mas Ana entendeu o que ele quis dizer. Ela virou o rosto, tentando esconder o sorriso bobo e o rosto vermelho.
Pegou a bola e andou até a frente da cesta.
— Vamos ao que interessa, então. O basquete.
Ela tentou um arremesso, mas a bola passou longe. Pedro riu alto e correu atrás.
— Calma aí, jogadora! Não é só jogar de qualquer jeito. Tem técnica.
Ele mirou a cesta e mostrou o movimento certo, acertando a cesta. Respirou aliviado; se tivesse errado, teria sido vergonhoso. Depois, pegou a bola novamente, colocou a bola nas mãos dela e ensinou o movimento.
— Com essa mão, você dá o impulso. A outra só apoia. Vai…
Ana seguiu as instruções. A bola foi na direção certa, mas sem força suficiente.
— Muito bem — elogiou ele. — Agora só falta um pouco mais de força.
Pedro pegou a bola e se colocou atrás dela. As mãos dele ficaram sobre as dela.
— Agora é só mirar — murmurou ele perto da orelha dela.
Ana virou o rosto e se deparou com o rosto dele muito próximo do seu. Os olhos se encontraram e permaneceram fixos por alguns segundos. O sorriso de Pedro era tão lindo que ela quase perdeu o ar. Por um instante, achou que ele fosse se aproximar ainda mais… e ela talvez deixasse.

Mas então se deu conta de onde estavam — ainda dentro da escola. Mesmo com o fim do ano se aproximando, não era exatamente o tipo de lugar em que poderiam simplesmente esquecer as regras. Ela virou o rosto antes que a coragem a traísse. Eles fizeram o movimento de impulso juntos. A bola bateu na lateral do aro e saiu.
Eles continuaram jogando, rindo, Ana fingindo se concentrar no esporte para não “entrar em perigo” novamente. Quando o sol se despediu de vez, Pedro a acompanhou até o dormitório.
No caminho, conversaram e riram do quanto ela era ruim no jogo.
Na hora da despedida, os dois ficaram em silêncio, sem saber se davam um aperto de mão ou um abraço. Pedro criou coragem e a puxou com delicadeza para si. Ela se deixou envolver, sentindo o calor do corpo dele. Mesmo com o leve suor da quadra, ainda dava para sentir o perfume que ele havia usado mais cedo. O tecido da roupa dele era macio.

Ele se afastou devagar, mas continuou segurando a mão dela até o último segundo.
— Boa noite, Lalitinha.
— Boa noite, Pedro.



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