Conselhos, Despedidas e Escolhas
O fim do ano chegou trazendo consigo a ansiedade pelos resultados dos vestibulares. Depois de anos de provas, simulados, tardes na biblioteca e uma quantidade incontável de horas de estudo, Ana e Marcos aguardavam juntos o resultado mais importante de todos.
Os dois haviam prestado Medicina na universidade federal do estado. As vagas eram disputadíssimas, mas eles estavam confiantes. Tinham se preparado para aquilo durante anos e, de alguma forma, parecia natural que terminassem o ensino médio seguindo pelo mesmo caminho.
Quando o resultado finalmente saiu, Marcos mal conseguiu conter a felicidade.
Ana também tinha passado.
Deveria estar tão feliz quanto ele.
Mas não estava.
Enquanto Marcos comemorava, Ana sentiu um aperto estranho no peito. Olhou novamente para o resultado, para o próprio nome entre os aprovados, esperando que a euforia aparecesse.

Nada.
Depois de todo aquele esforço, depois de conseguir uma vaga que tantos sonhavam em conquistar, por que aquilo não parecia uma vitória?
Talvez Medicina simplesmente fosse a escolha óbvia. Ana sempre tivera notas excelentes, gostava de desafios e estava acostumada a buscar os primeiros lugares. Na cabeça dela, alguém com seu desempenho deveria escolher um curso difícil, concorrido, daqueles em que só os melhores conseguiam entrar.
Ainda assim, uma pergunta insistia em incomodá-la:
Por que ela não estava vibrando como Marcos?
Mais tarde, ao abrir o Instagram, percebeu como aquele era o sonho do amigo.
Marcos havia postado uma foto antiga. Nela, ainda pequeno, aparecia usando um jaleco grande demais para seu corpo e o estetoscópio do pai pendurado no pescoço. Ao lado, a lista com o nome aprovado. As fotos vinham acompanhadas de um texto lindo e emocionante comemorando a aprovação.
Ana sorriu.
Para Marcos, aquilo não havia começado naquele ano. Nem mesmo no ensino médio.
Era um sonho de infância.
Mas e ela?
Quando Medicina tinha se tornado o sonho de Ana?
Tentou encontrar uma lembrança. Uma conversa com os pais. Um momento em que tivesse pensado é isso que eu quero fazer da minha vida. Qualquer coisa.
Não encontrou.
Em algum momento do ensino médio, simplesmente havia começado a seguir o mesmo caminho que o melhor amigo. Para Marcos, Medicina sempre havia sido um sonho. Para Ana, talvez tivesse sido apenas o caminho que parecia fazer sentido. Eles estudavam juntos, competiam pelas melhores notas, gostavam das mesmas matérias e faziam tantos planos lado a lado que seguir o mesmo caminho pareceu natural.
Será que, por serem tão parecidos, Ana havia pegado emprestado o sonho de Marcos sem sequer perceber?
A pergunta trouxe consigo uma lembrança distante — uma conversa que, naquela época, Ana não imaginava que um dia faria tanto sentido. Uma voz que ela não ouvia todos os dias havia anos, mas cujas palavras continuavam guardadas em algum lugar.
Kayla.
E, de repente, Ana estava outra vez no primeiro ano.
♡1º ano de Ana♡
Kayla tinha sido a colega de quarto que qualquer novata sonharia em encontrar.
Tinha um jeito tranquilo de olhar para o mundo, como se já tivesse entendido que nem todas as respostas precisavam ser encontradas imediatamente.
Nas primeiras semanas no Monte Vale, quando tudo ainda era novo para Ana, Kayla havia se tornado seu porto seguro. Explicava os horários, avisava quais professores eram mais exigentes, ensinava os melhores dias para usar a lavanderia e ria das pequenas confusões da nova colega.
Acima de tudo, lembrava Ana de respirar.
Ana ainda conseguia se lembrar de uma noite em particular.
As duas estavam sentadas perto da janela do quarto, observando o céu escuro pontilhado de estrelas. Ana tinha os joelhos abraçados contra o peito enquanto Kayla falava com aquela tranquilidade que parecia tão natural nela.

— Eu sei como é — disse Kayla. — Quando entrei aqui, também achava que precisava saber exatamente o que queria da vida… Medicina, Engenharia, Direito… qualquer coisa grande, que fizesse sentido pra todo mundo.
Ana assentiu em silêncio.
— Mas aí eu descobri que viver é mais sobre o agora. Sobre as amizades, sobre descobrir do que você gosta de verdade. Tem tempo pra decidir. E, sinceramente? Mesmo no terceiro ano, eu ainda não tenho certeza absoluta.
Ana soltou uma risada baixa.
— Sério?
— Sério. E tudo bem. Aproveita o processo. O colégio pode ser puxado, mas também pode ser incrível… se você permitir.
Ana sorriu.
Naquela época, com apenas quatorze anos e um mundo inteiro pela frente, escolher uma profissão parecia uma preocupação distante. E como era bom ter alguém como Kayla por perto para lembrá-la disso.
Kayla tinha um irmão mais novo, Luca, que também havia acabado de entrar no colégio, no primeiro ano, embora não estivesse na mesma turma que Ana. Ela o mencionava com carinho e às vezes contava histórias engraçadas da infância dos dois, fazendo Ana se sentir um pouco menos sozinha sempre que a saudade de casa aparecia.
Com o passar dos meses, Kayla deixou de ser apenas sua colega de quarto.
Virou uma espécie de irmã mais velha.
Era quem ajudava Ana a manter os pés no chão e quem insistia que crescer não precisava ser uma corrida.
Na época, Ana não imaginava que aquelas palavras ainda voltariam à sua cabeça anos depois.
♡♡♡
O primeiro ano de Ana se aproximava do fim, e com ele chegava uma despedida que Ana preferia não pensar muito.
Kayla estava se formando.
Em pouco tempo, Ana perderia sua colega de quarto e uma de suas melhores amigas. Ainda teria Marcos, é claro, além das outras amizades que havia construído ao longo daquele primeiro ano. Mas, dentro do dormitório feminino, Kayla tinha sido sua companheira para tudo.
Ana ainda se lembrava de uma das últimas noites das duas naquele quarto.
O ambiente estava em meia penumbra, iluminado apenas pela luz suave do abajur na mesinha de Ana. Elas estavam sentadas em suas camas, de frente uma para a outra, como tantas vezes haviam feito durante aquele ano. Kayla escovava os cabelos ruivos com calma, enquanto Ana apertava levemente o travesseiro contra o peito.
— Você já decidiu o que vai fazer no ano que vem? — Ana perguntou.
Kayla parou por um instante e olhou para o teto antes de responder.
— Acho que sim. Mas ainda não tenho nada certo… É uma daquelas decisões grandes, sabe? Se der certo, eu te conto. Prometo.
Ana sorriu, compreensiva.
— Tudo bem. Só quero que seja algo que te faça feliz.
— Vai ser. Eu sinto que vai ser — disse Kayla, fechando os olhos com um meio sorriso.
♡♡♡
Um mês depois, o sol se punha atrás dos prédios do Monte Vale, tingindo o céu de dourado e rosa.
O pátio estava cheio de estudantes em seus trajes de formatura, famílias emocionadas, abraços e flashes por todos os lados. Ana caminhava entre os grupos procurando Kayla no meio da agitação.
Quando finalmente a encontrou, ela estava perto do palco, diploma em mãos, sorrindo para algumas fotos com as colegas.
Assim que viu Ana, Kayla abriu os braços.
— Você veio!
Ana correu para abraçá-la.

— Claro que eu vim. Ia te deixar escapar sem se despedir de mim?
As duas riram e, depois de mais algumas fotos e cumprimentos, afastaram-se um pouco da multidão até encontrarem um canto mais tranquilo do pátio.
Kayla tirou o capelo da cabeça.
— Lembra que eu disse que, se desse certo, eu te contava o que ia fazer no ano que vem?
Ana assentiu, imediatamente curiosa.
— Então… deu certo. Eu me inscrevi para um programa de voluntariado internacional. Vou passar um ano viajando por alguns países, trabalhando com educação e saúde em comunidades carentes. Começo no mês que vem.
Ana arregalou os olhos.
— Kayla… isso é incrível!
— Eu precisava disso, sabe? Algo que fizesse sentido de verdade pra mim. Acho que é o momento.
Ana a abraçou novamente, dessa vez com força.
— Você vai ser incrível. Já é, na verdade.
Kayla sorriu contra o ombro da amiga.
— Você vai ficar bem sem mim?
— Eu tenho o Marcos… e alguns outros amigos — respondeu Ana, rindo. — Mas ninguém vai ocupar seu lugar.
— Também vou sentir sua falta. Mas essa amizade não é de dormitório, é da vida. A gente ainda vai se ver muito por aí.
Por um instante, as duas permaneceram juntas em meio ao movimento da formatura.
Havia tristeza naquela despedida, claro. Mas havia também felicidade, a sensação de que Kayla estava seguindo em direção a algo que realmente queria.
Kayla estava indo embora justamente porque havia encontrado algo que queria viver, não porque fosse o caminho mais óbvio, mas porque era o caminho que fazia sentido para ela.
E, tantos anos depois, era isso que Ana mais se lembrava daquele dia.
Da certeza no rosto da amiga quando disse que finalmente havia encontrado algo que fazia sentido para ela.
♡♡♡
A lembrança se desfez aos poucos, trazendo Ana de volta ao presente.
Na tela do celular, o pequeno Marcos de jaleco ainda sorria para ela.
Ele sempre soubera.
Kayla havia escolhido esperar até descobrir.
E Ana?
Ana tinha uma vaga em Medicina.
Só não sabia se tinha um sonho em Medicina.



Deixe um comentário