Dúvidas, Cafés e Bilhetes
Pedro acordou antes do despertador do celular tocar. Não por estar animado para o dia, mas porque mal tinha dormido. Virou para o lado umas cinquenta vezes, tentou contar estrelas imaginárias, ensaiou mil formas de interpretar o que tinha acontecido na noite anterior.
O beijo. A reação dela. O silêncio. A despedida apressada.
Passou a noite se perguntando se tinha avançado demais, se estragou algo bonito, se ela tinha ido dormir sorrindo… ou decepcionada.
Se sentou na cama com os cabelos bagunçados e os olhos pesados. Estava exausto.
— Dormiu bem, Romeu? — perguntou Marcos, já arrumado.
Pedro franziu o cenho.
— O quê?

— Nada. Só achei engraçado você estar acordado agora. Achei que ia dormir até o almoço depois da trilha de ontem.
Pedro passou a mão no rosto, tentando acordar de verdade.
— Dormi mal. Muito calor. E a cama é meio… desconfortável.
Marcos riu, baixinho, sem tirar os olhos do irmão.
— “Muito calor”, né?
Pedro encarou o irmão com desconfiança.
— O que foi?
— Nada — respondeu Marcos, levantando as sobrancelhas de leve. — Só que… eu te conheço desde que você usava pijama com estampa de dinossauro. E sei quando você tá com a cabeça a mil.
Pedro se levantou devagar e foi até a pia do banheiro pequeno do quarto. Marcos perguntou sem conseguir se segurar.
— Você quer me dizer o que aconteceu ontem depois que eu vim dormir?
Pedro não respondeu. Lavou o rosto com água gelada, olhou para o espelho e viu o reflexo de alguém completamente perdido.
Marcos, com calma, completou:
— Ou você quer que eu adivinhe?
Pedro se escorou na pia e olhou de volta para o irmão.
— Eu beijei ela.
Marcos não fingiu surpresa. Apenas assentiu, como quem confirma uma teoria.
— E?
— E… eu não sei se fiz besteira.
— Ela te empurrou?
— Não.
— Te xingou?
— Não. Disse que tava tudo bem. Mas depois foi dormir meio do nada. E agora eu não sei se ela só foi educada ou se… sei lá.
Marcos cruzou os braços, sorrindo com aquele jeito calmo e um pouco debochado de irmão mais velho.
— Pedro, se ela não tivesse gostado, você já teria recebido um discurso de trinta minutos da Ana sobre respeito e amizade. Mas você não recebeu nada disso, né?
— Não.
— Então… talvez você devesse só esperar. Às vezes, quando é especial, a gente só precisa de um tempo pra processar.
Pedro ficou em silêncio. Marcos suspirou.
— Foi o primeiro beijo dela.
Pedro arregalou um pouco os olhos.
— Sério?
Marcos abriu um sorriso verdadeiro dessa vez. Se aproximou, deu dois tapas fraternos nas costas do irmão e disse:
— Cara… vocês são um caso perdido. E completamente certos um pro outro.
Pedro ainda parecia tenso, mas agora com um brilho nos olhos.
— Você acha?
— Eu sei.
♡♡♡
Ana já estava de banho tomado, com tudo organizado e malas prontas quando desceu para a cozinha do chalé. Lá embaixo, Marcos já estava com uma caneca de café e uma fatia de pão na mão, encostado no balcão.
— Bom dia, futura cunhadinha — ele disse, levantando a sobrancelha com malícia contida, e mandando um beijo no ar.
Ana arqueou uma sobrancelha e, mesmo tentando manter a pose, não conseguiu evitar o sorriso.
— Você é insuportável, sabia? — disse, dando um soquinho no braço dele. — E seu irmão é fofoqueiro.
— Aham. E você tá brilhando igual a lua de ontem à noite. — Ele mordeu mais um pedaço do pão. — Dormiu bem?
— Melhor que nunca. — Ela pegou uma caneca para si e começou a preparar o café. — E… ele?
— Acordou parecendo que passou a noite fazendo prova do ENEM. — Marcos riu. — Tá convencido de que estragou tudo. Acha que você só não fugiu correndo para vomitar no banheiro por educação.
Ana fez uma cara preocupada.
— E?
— Eu avisei pra ele esperar. Mas agora a bola tá com você. Vai ter que mostrar que tá tudo bem… se quiser continuar a partida, claro.
Ana mordeu o lábio inferior, pensativa.
Em silêncio, puxou uma caneta da gaveta da cozinha, pegou um pequeno bloquinho de notas e escreveu algo rápido, dobrando o papel. Então começou a preparar o café do jeito que Pedro sempre tomava: pouco açúcar, leite antes do café, mexido devagar.
Depois de um tempo, olhou para Marcos, provocativa.
— Mas olha só, chega de falar da minha vida amorosa… vamos falar da sua.
— Lá vem — ele revirou os olhos.
— Ontem você foi bem gentil com ela. Principalmente depois da trilha. Você parecia… mais atento.
Marcos arqueou uma sobrancelha.
— Mais atento?
— Você sabe o que eu quero dizer.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, olhando para a própria caneca.
— Talvez eu esteja começando a enxergar algumas coisas que antes eu não enxergava.
Ana sorriu de leve.
— Então você está começando a gostar dela?
Marcos fez uma pequena careta.
— Não importa, ano que vem cada um vai seguir seu caminho, e provavelmente nem vamos mais nos ver.
— Então, se ela continuasse na sua vida, você daria uma chance?
— Não. Porque eu não quero começar um relacionamento agora.
— Caramba, você não muda de ideia nunca né?
Marcos deu de ombros.
— Eu sou um cara decidido.
— Tá mais pra teimoso.
Marcos olhou para ela.
— Eu ainda quero focar nos estudos. E também não quero criar expectativas nela sem ter certeza do que eu sinto.
Ana pensou por um instante antes de responder.
— Então só seja você mesmo. Você pode ser gentil com ela sem dar falsas esperanças.
Marcos sorriu de canto. E Ana continuou.
— Mas eu ainda acho que você deveria dar uma chance. Aliás, por que eu posso dar uma chance ao amor e você não? Estamos na mesma situação. Ano que vem eu e o Pedro também estaremos em momentos diferentes, mas você continua me incentivando pra ficar com ele.
— Amor? Já tá tão sério assim?
Ana ficou vermelha na mesma hora ao perceber o que tinha falado.
— Cala a boca, Marcos.
Ele riu, satisfeito, enquanto ela tentava esconder o sorriso.
— Bem, respondendo sua pergunta, eu sei que vocês têm tudo pra dar certo. E além disso vocês vão ter uma ligação pra sempre.
— Que ligação?
— Eu! Nós vamos continuar sendo amigos pra sempre.
Ela ficou parada olhando para ele com um sorriso de quem achou aquilo fofo e brega.
Ele percebeu que aquilo tinha sido muito sentimental e falou envergonhado.
— Tá… isso foi meloso e ridículo!
— Foi bem fofo, na verdade — disse ela, caindo na risada.
— Tá bom cunhada, agora dá um jeito de deixar meu irmão mais tranquilo.
— Na verdade eu queria gravar o que você falou, você pode repetir… por favor… só uma vez.
— Hahaha! — Ele riu falsamente. — Você é muito engraçadinha.
Eles continuaram com as provocações, enquanto Ana terminava de preparar um prato com pão e frutas para Pedro.
Gabi, ao descer as escadas, viu na cozinha Marcos inclinado para o lado de Ana, rindo baixinho enquanto lhe dizia algo perto do ouvido. Ana soltou uma risada abafada e deu um tapinha leve no braço dele, os dois claramente à vontade um com o outro.

Um aperto involuntário tomou conta do peito de Gabi, mas ela rapidamente compôs a expressão e caminhou como se não tivesse percebido nada. Pedro apareceu logo atrás dela, distraído, sem notar o olhar ciumento que Gabi lançou aos amigos risonhos à frente.
Assim que Ana ouviu passos, ela se apressou em colocar o café da manhã de Pedro sobre a mesa e o bilhetinho dobrado embaixo da xícara, sobre o pires.
Pedro entrou na cozinha, um pouco sonolento mas visivelmente nervoso. Ana sorriu com gentileza.
Gabi já chegou reclamando.
— Vocês não vão acreditar na dor que eu tô nas panturrilhas. Se alguém me chamar pra fazer trilha de novo, eu juro que… ah, esse café aqui tá pronto?
Ela já ia pegar a xícara quando Ana rapidamente se intrometeu com um sorriso gentil, mas firme.
— Esse é do Pedro! Eu faço um pra você agora, Gabi. Do jeitinho que você gosta.
Gabi bufou e se sentou, esticando as pernas com exagero, enquanto começava a listar como queria seu café: com canela, quente, mas nem tanto, um pouco de leite…
Enquanto isso, Pedro pegou sua xícara, murmurando um agradecimento tímido… e foi só levantar a xícara do pires para ver o bilhetinho ali.
Acho que a gente começou bem. Mas eu estava nervosa.
PS: Ainda estou.
– Ana
Pedro congelou por um segundo, depois olhou para Ana. Ela estava fingindo se concentrar no café de Gabi, mas os ombros dela estavam tensos, como se esperasse a reação dele. Quando finalmente o olhou de lado, ele estava com um sorriso tão escancarado no rosto que parecia não caber dentro dele.

Ana abaixou o rosto rapidamente, mordendo os lábios para esconder o sorriso, o rosto já ardendo.
Gabi, distraída demais com seu drama físico e passando geleia em seu pão, nem percebeu a troca de olhares. Mas Marcos, sentado em silêncio, sorria discretamente com satisfação.
Eles aproveitaram o restante da manhã desfrutando os últimos momentos no chalé. O almoço foi simples: apenas cozinharam o macarrão e misturaram ao molho caseiro que Denise havia deixado preparado com antecedência. Depois, organizaram suas coisas com calma e ficaram aguardando Ricardo, que viria buscá-los para levá-los de volta.
O fim de semana mágico chegava ao fim… mas algo entre Ana e Pedro estava apenas começando.



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