Ciúmes, Implicâncias e Relação Difícil
♡Segundo ano de Ana♡
O ano estava prestes a começar, e Ana retornava ao dormitório já tão familiar. Desta vez, foi realocada para outro quarto e estava curiosa para descobrir quem seria sua nova companheira. Será que seria outra veterana mais velha? Uma novata? Ou talvez alguma colega de classe?
Sua surpresa foi grande ao abrir a porta e encontrar Gabi pendurando luzes coloridas em um dos lados do quarto.

— Oi, Ana Laura! Parece que vamos dividir o quarto agora. A sua colega do ano passado também se formou, né? Vocês eram amigas? — perguntou Gabi, sem sequer esperar uma resposta. — Porque a minha era uma chata. Aquela loira aguada, sabe? Se achava só porque era formanda e eu novata. Ainda bem que não vou mais ter que ver aquele cabelo tingido na minha frente…
Ana a olhou com um misto de espanto e reprovação.
— Gabi, você não deveria falar da aparência das pessoas desse jeito…
— Ah, relaxa, Ana, não falo por mal. É só jeito de falar. Não tenho nada contra loiras, sejam naturais ou tingidas. Minha mãe, por exemplo, é uma loirona maravilhosa, parece uma top model! Sério, quando você conhecer ela, vai ver. Puxei os olhos dela. O resto é do meu pai, que é negro.
Ana deu um pequeno sorriso. Por um lado, ficou feliz por dividir o quarto com alguém que já conhecia. Por outro, sentiu um leve aperto no peito — Gabi era divertida e animada, mas nem sempre era a pessoa mais gentil com ela, embora vivesse cercada de amigos e fosse carismática com todos.
Naquela primeira noite de volta ao dormitório, Ana arrumava suas coisas em silêncio, dobrando cuidadosamente as roupas na prateleira. Gabi, deitada na cama já decorada com almofadas estampadas e luzes piscando, rolava o feed no celular com o som baixo de uma música pop tocando ao fundo.
— Você é bem organizada, né? — comentou Gabi, sem desviar os olhos do celular. — Aposto que sua cama fica igual àquelas de catálogo o semestre inteiro.
— Nem tanto… só gosto de começar o ano com tudo em ordem — respondeu Ana, sem olhar diretamente para ela.
— A Kayla também era dessas?
Ana hesitou por um segundo.
— A Kayla era tranquila. Ajudava muito… Virou uma grande amiga.
— Hum. Legal. — Gabi virou de lado, olhando agora para Ana com um ar quase desafiador. — Não sei se a gente vai virar “grandes amigas”, mas prometo não deixar bagunça do meu lado.
— Só isso já ajuda bastante — disse Ana com um meio sorriso, tentando manter o tom neutro.
— E, olha, se eu falar alguma besteira, me dá um toque, tá? Eu falo sem filtro às vezes… mas não é por mal. Você sabe, né?
Ana assentiu, mas não respondeu.
O quarto ficou em silêncio por alguns segundos, exceto pela música baixa e o leve barulho da rua ao longe. Não era hostilidade… mas também não era exatamente conforto. Era o começo de uma convivência que ambas sabiam que poderia dar certo — ou não.
♡♡♡
No dia seguinte, o clima entre Ana e Gabi já estava mais leve. Elas tinham trocado algumas risadas no café da manhã, e Ana até elogiara a colcha nova que Gabi tinha trazido, o que arrancou um sorriso sincero da colega.
— Viu só? A gente até pode funcionar bem juntas — disse Gabi, ajeitando os cachos num coque alto, olhando o reflexo no espelho.
— É, tô começando a achar que sim — respondeu Ana, arrumando a mochila para aula. — Ainda não acredito que você dorme com essas luzes piscando…
— Acostuma. É bom para o meu sono. — Gabi piscou um olho e foi até sua cama, pegando o celular.
O próprio celular de Ana vibrou em seguida. Ela olhou a tela e sorriu, surpresa.
— É o Marcos. Ele tá aqui na frente do dormitório… disse que trouxe um presente pra mim.
— Hum — respondeu Gabi, o tom mais contido agora.
— Ele não falou o que é… disse só pra eu descer. Você quer vir comigo?
— Não. Tô de boa. Vai lá — disse Gabi, já mexendo no celular, os olhos fixos na tela, como se tivesse perdido o interesse na conversa.
Ana hesitou por um momento, percebendo a mudança no tom. Mas preferiu não insistir.
— Tudo bem. Eu já volto.
Quando saiu do quarto, Gabi soltou um suspiro, largando o celular ao lado. Ficou olhando o teto por alguns segundos, tentando convencer a si mesma de que não se importava. Mas a verdade é que o nome “Marcos” tinha o estranho poder de apertar algo dentro dela.
Ana voltou para o quarto com um sorriso largo no rosto, quase desaparecendo atrás de um urso de pelúcia enorme, bege, macio, com um laço de cetim marrom no pescoço. Assim que empurrou a porta com o pé e entrou, Gabi ergueu os olhos do espelho e arregalou levemente os olhos.
— Gente… — Gabi disse, com uma risada breve, sem humor. — O que é isso?
— Um presente do Marcos! — Ana respondeu, animada, deixando o urso cuidadosamente sobre a cama. — Eu não acredito que ele lembrou… Eu comentei uma vez, ano passado, que meu sonho de criança era ter um urso desses. Mas meus pais nunca conseguiram comprar um.
Ela acariciou o focinho do bicho com carinho, com o mesmo encanto de quem realiza um desejo antigo.
Gabi se levantou, silenciosa, ajeitou a alça da mochila no ombro e pegou os livros da escrivaninha.
— Onde você vai? — Ana perguntou, ainda sorrindo, mas notando a mudança no ar. — Achei que a gente ia juntas pra aula…
— É — Gabi respondeu, sem olhar diretamente para ela. — Mas eu não vou poder te esperar. Ninguém mandou você ficar perdendo tempo lá fora.
Antes que Ana pudesse dizer qualquer coisa, Gabi já havia saído, a porta se fechando num clique seco atrás dela.
Ana ficou parada por um instante, o sorriso murchando aos poucos. Olhou para o urso na cama, ainda com carinho, mas agora também com um leve nó no estômago. Ela se sentou ao lado dele, tentando entender por que tudo parecia tão confuso quando o assunto era Gabi.

♡♡♡
Durante uma aula no laboratório, o professor de Biologia anunciou com entusiasmo — e um sorriso malicioso que deixava qualquer um em alerta — que fariam uma atividade prática em trios.
Ele distribuiu as lâminas e os pequenos frascos de corante que seriam usados para facilitar a visualização das estruturas das células no microscópio.
— Gabi, pode se juntar à Ana e ao Marcos naquela bancada ali — disse ele, apontando para os dois, que já estavam sentados lado a lado como sempre.
— O quê? — Gabi arregalou os olhos, arrumando os cachos com uma das mãos. — Com o Marcos?
Ela se levantou com exagero teatral da banqueta, pegou seu caderno e caminhou até eles como se pisasse num tapete vermelho.
— Oi, Marcos — disse, com um sorriso largo e a voz suavizada. Jogou o cabelo para o lado. — Parece que o destino resolveu juntar nós dois — enfatizou, indicando a si mesma e Marcos com as mãos, como se Ana nem estivesse ali.
Marcos, concentrado em montar o microscópio, pareceu não dar atenção ao comentário.
— Vamos analisar células vegetais, né? — comentou ele, sem desviar os olhos do equipamento.
— Isso mesmo — disse Gabi, apoiando-se demais na mesa. — Células lindas e complexas. Tipo eu.
Ana segurou o riso, abaixando a cabeça para esconder o sorriso involuntário. Gabi estava em um de seus dias performáticos.
Tentando tomar a frente, Gabi puxou o microscópio para si com uma empolgação suspeita. Pegou a primeira lâmina e, ao tentar ser rápida, esbarrou no pequeno frasco de corante ao lado. O líquido respingou direto no jaleco de Marcos e escorreu pela mesa.
— Ai, não! — exclamou ela, alarmada. — Desculpa! Desculpa mesmo!
Puxou apressadamente um papel toalha, mas ao tentar limpar, só espalhou ainda mais o corante roxo.

— Tá tudo bem, Gabi — disse Marcos com a voz calma, tirando gentilmente o papel da mão dela. — Deixa que eu limpo.
— É que… eu fiquei nervosa — murmurou Gabi, corando, abaixando o olhar envergonhada.
— Não tem motivo pra isso — disse ele, com um leve sorriso. — É só uma aula de laboratório, não um desfile.
Ana, que tentava se manter discreta, já estava limpando a parte da bancada que também havia sido atingida. Gabi então a notou e comentou, com um tom mais seco do que pretendia:
— Eu consigo limpar, Ana.
Ana levantou os olhos, surpresa pelo comentário, mas antes que pudesse responder, Marcos interferiu:
— Ela só tá sendo prestativa. Como sempre. E faz muito bem, já que alguém tem que manter a bancada limpa.
Gabi recuou, engolindo o comentário seguinte, e se limitou a ajeitar novamente o cabelo.
O trio continuou com a atividade, enquanto Gabi, tentando ser engraçada, exagerava nas descrições do que via no microscópio. Sem perceber, acabava sempre destoando da sintonia que existia entre os dois, como se fosse uma peça fora do lugar naquela harmonia sutil.
Ana observava a cena com um misto de pena e carinho. Gabi, apesar de tudo, era só uma menina tentando se destacar. Mas naquele laboratório, a única coisa que ela tinha conseguido destacar mesmo era um borrão roxo no jaleco alheio.
Naquele mesmo dia, Ana resolveu tocar no assunto “Gabi” com Marcos:
— Você sabe que a Gabi gosta de você, né?
Marcos fez uma pequena careta.
— Acho que já comecei a desconfiar. Ela não é exatamente discreta.
Ana riu.
— E você nunca pensou em dar uma chance pra ela?
— Ah… você sabe que eu não quero namorar agora.
Ela ficou mais séria. Sabia.
— Eu sei. Só achei que talvez com ela fosse diferente.
Marcos balançou a cabeça.
— A Gabi é legal. E bonita também. Não é esse o problema. Mas eu sinto que ela é um pouco… demais.
— Demais como?
— Sei lá… ela precisa de um cara disposto a acompanhar essa… energia dela, e você sabe que eu tô focado nos estudos agora.
Ana assentiu. Ela sabia que havia mais naquela resposta, mas também sabia quando não insistir.
— Então eu não vou me meter.
Marcos sorriu.
— Você acabou de se meter.
— Tá. Então não vou me meter mais.
♡♡♡
Mais um ano estava chegando ao fim, e Ana e Marcos se despediam antes das férias, sentados no jardim do colégio onde tantas conversas tinham acontecido ao longo dos meses.
— Vai me dar notícias, né? — ele perguntou, com um sorriso.
— Claro. Todos os dias, sem falta — respondeu ela, fazendo uma careta. — Seu chato. Tá parecendo um irmão mais velho protetor e grudento.
— E você tá parecendo uma irmãzinha dramática — ele riu. — A gente se vê ano que vem, Lalitinha.
Ela sorriu com o apelido que ele descobrira meses antes e que tinha pegado sem que ela percebesse.
— Ah, e só pra você saber — disse Marcos, enquanto se levantavam —, no próximo ano vamos ter novidades. Na verdade, um novo integrante no nosso grupo de dois. Meu irmão vai entrar no primeiro ano. E, como irmão mais velho responsável, tenho que ficar de olho nele.
— Eu sei, o Pedro, você já falou nele um milhão de vezes.
— Sim. O Pedro. Espera, acho que tenho uma foto dele aqui.
Marcos pegou o celular e procurou por alguns segundos antes de virar a tela na direção dela.
Na foto, Pedro ainda era criança. Tinha cabelos loiros, bochechas redondas e um sorriso fácil que ocupava quase todo o rosto.

Ana pegou o celular para enxergar melhor.
— Que fofo! Olha essas bochechas!
Marcos riu.
— Não fala isso na frente dele. Ele vai me matar por ter mostrado essa foto.
— Agora eu vou ter que chamar ele de bochechudo.
— Nem pense nisso, Lalitinha.
Ana riu, devolvendo o celular.
— Mas não se preocupe — continuou Marcos, guardando-o no bolso. — Você vai gostar dele. Todo mundo gosta.
Ana não deu muita importância à afirmação. Pedro era, naquele momento, apenas o irmão mais novo de Marcos, um menino bochechudo numa fotografia antiga que ela provavelmente nem lembraria direito dali a alguns meses.
Ela foi para as férias animada, mas já com saudade do amigo. Passou dias ensolarados na praia com os pais, visitou as duas avós, riu, descansou. Mas, no fundo, sentia um chamado sutil para voltar logo ao Monte Vale.
Algo lhe dizia que aquele último ano seria diferente.
Especial.



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