Abelhas, Diários e Encantamento
O sol estava coberto por nuvens; o dia nublado deixava o clima parecido com o de um filme ambientado em Londres. Ana e Pedro esperavam por Marcos no jardim perto da saída do campus. Era o dia em que os alunos internos podiam sair da escola para aproveitar a tarde na cidade. Ana e Marcos costumavam passear juntos nessas ocasiões, às vezes acompanhados de outros amigos. Mas agora Pedro sempre se juntava a eles — o que deixava Ana estranhamente ansiosa.
Ana conferiu o relógio pela terceira vez.
— Estranho… o senhor certinho está atrasado de novo — comentou, franzindo o cenho.
Pedro riu, escorado no tronco de uma árvore.
— Ele anda atrasando direto ultimamente. Já reparou que só acontece quando sabe que você vai esperar comigo?
Ana levantou as sobrancelhas, surpresa.
— Sério?
— Hum-hum. Meu irmão não é bobo — Pedro sorriu com aquele jeito descontraído de sempre. — Acho que ele tá fazendo isso de propósito. Meio que… empurrando a gente.
Ana sorriu, encabulada, mas não respondeu. Retirou o caderno e o estojo da bolsa, pegou uma caneta marca-texto e começou a folhear suas anotações com um sorriso leve no rosto.
— Sabe o que é engraçado? — Pedro começou, olhando para ela. — Você estuda até no tempo livre.
— Não tô estudando, tô relendo o que escrevi na aula passada — ela deu de ombros. — É diferente.
Ele se sentou ao lado dela, observando o que fazia e admirando sua letra bonita, quando uma abelha começou a zumbir ao redor dos dois. Pedro se encolheu na hora, dando um tapa no ar.
— Credo! Sai daqui, bicho doido! — disse ele, já pegando o estojo de Ana como se fosse uma arma.
— Não! — Ana segurou o pulso dele com firmeza. — Não machuca ela!
Pedro a encarou, surpreso.
— É uma abelha, Ana. Pode te picar!
— Só se ela se sentir ameaçada. Elas não picam à toa. — Ela se levantou devagar e, com a mão espalmada, fez um movimento calmo para espantar o inseto. A abelha desviou e voou até uma flor próxima.

— Uau… isso foi meio… mágico — Pedro comentou, ainda com os olhos seguindo a abelha.
Ana riu.
— Você sabia que algumas abelhas, como as abelhas-do-mel, podem morrer depois de picar a gente? O ferrão fica preso e acaba ferindo o próprio corpo delas. Elas não fazem isso por nada. Acho cruel matar algo tão pequeno por impulso.
Pedro a observou em silêncio por um instante, com um sorriso se formando no canto da boca.
— Então você é tipo… a defensora oficial das abelhas?
— Eu sou só alguém que admira quem trabalha duro em silêncio. Elas são responsáveis por boa parte da vida ao nosso redor, e ninguém percebe.
— É… — ele disse devagar, olhando de novo para a abelha que pousava em uma flor. — Bonito isso. Meio… você, sabia?
— O quê?
— Trabalhadora, discreta… importante pra caramba sem precisar chamar atenção. — Ele sorriu, desviando o olhar depois de falar, um pouco sem graça.
Ana corou, mas manteve o olhar nele, meio surpresa, meio encantada. O silêncio entre os dois foi leve, confortável.
Então, finalmente, surgiu a figura de Marcos, andando com calma e um sorriso contido, como quem sabia exatamente o que estava fazendo. Trazia nas mãos duas garrafas d’água e uma expressão discreta demais para ser inocente.
— Desculpem a demora — disse, entregando uma das garrafas para Ana. — Um professor me parou no corredor, pedindo ajuda com um projeto para a próxima feira.
Pedro arqueou uma sobrancelha.
— Ah, claro. O professor. Que conveniente.
Marcos deu de ombros, mantendo o ar neutro.
— Mas já que estamos aqui, pensei em levar vocês para conhecer uma cafeteria nova que abriu perto da escola. Ambiente tranquilo, tem uns cafés incríveis e uns doces de outro mundo.
— Eu topo! — disse Ana, animada. — Um café agora cairia muito bem.
— Eu também — acrescentou Pedro, curioso.
Eles caminharam pelas ruas arborizadas até uma ruazinha tranquila, onde ficava a cafeteria. A fachada era de madeira clara, com janelas amplas e plantas penduradas, e o nome, em letras cursivas, dizia: “Flor e Fumaça”.
Ao entrarem, foram recebidos por um leve aroma de café moído na hora, baunilha e livros antigos. A decoração era totalmente vintage — mesas de madeira rústica, prateleiras cheias de objetos retrô, quadros com ilustrações botânicas e discos antigos. No fundo, tocava uma música instrumental suave, quase mágica.
Eles escolheram uma mesa perto da janela, com luz natural suave e um vasinho com flores brancas no centro.
— Então… — Marcos disse, tirando o celular do bolso e fingindo ver algo. — Acabei de lembrar que prometi ajudar um colega com uma coisa hoje. Preciso encontrá-lo numa loja aqui perto. Vocês dois se importam de me esperar aqui?
— Esperar? Você acabou de chegar — disse Pedro, desconfiado.
Marcos deu um tapinha nas costas do irmão.
— É rápido. Aproveitem o lugar. Vocês vão gostar. — E, antes que qualquer um pudesse protestar, ele já estava na porta, saindo como quem cumprira sua missão secreta.
Ana e Pedro se entreolharam, um pouco sem graça.
— Ele definitivamente tá aprontando alguma — Pedro murmurou, rindo.
Ana focou no cardápio para evitar o assunto. Eles fizeram o pedido, e ela se levantou para explorar um pouco o ambiente.
— Vou dar uma olhada ali naquela estante. Tem uns livros antigos incríveis.
Pedro a seguiu de perto, observando com atenção enquanto ela corria os dedos pelas lombadas de couro e tecido já desgastados. Foi quando ela puxou um volume diferente: um pequeno diário, com capa de couro envelhecido, um elástico marrom-escuro ao redor e marcas de tempo nas bordas.
— Olha isso… — Ana murmurou, admirada.
Ela soltou o elástico e abriu o diário com cuidado. Dentro, páginas amareladas, com caligrafia delicada, falavam sobre dias comuns e sonhos extraordinários. Havia notas sobre viagens, listas de coisas favoritas e sentimentos soltos no papel.
— Parece que alguém escrevia aqui como forma de guardar o mundo — disse ela, encantada.
Pedro ficou em silêncio por um segundo, observando-a folhear o diário.
— Combina com você. Aposto que daqui a uns anos vai ter um igualzinho, cheio de histórias.
Ana sorriu, ainda absorta nas palavras escritas à mão.
— Talvez… — sussurrou.
Por um instante, Pedro sentiu o tempo parar. A música ao fundo, a luz dourada das lâmpadas, o aroma do café e a presença tranquila de Ana criaram um momento que ele nunca esqueceria — um momento simples, mas que guardava algo precioso. Enquanto Ana admirava o diário, ele a admirava: o brilho em seus olhos, suas mãos folheando as páginas como se cada uma fosse um tesouro sendo descoberto, o sorriso sincero que aparecia em seus lábios. Aliás, que belos lábios ela tinha.
Como seria beijá-los? — o pensamento surgiu em sua mente.
O pedido chegou à mesa, e ele desviou o olhar antes que sua imaginação fosse mais longe.




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