Ajuda, Vestidos e Amizade
Sentada na grama, Gabi chorava em silêncio. O cabelo escorria chocolate derretido, ainda bem que não estava quente demais, poderia tê-la queimado. O vestido sedoso agora era só uma mancha de lembrança do glamour de poucos minutos atrás. A maquiagem borrada das lágrimas não escondia sua frustração. Ana se abaixou perto dela, sem saber por onde começar. Só ficou ali.
Uma professora se aproximou, ofegante.
— Gabi, você está bem? Quer ir ao posto médico?
Gabi nem respondeu. Só chorava.

— Professora — Ana disse com calma —, deixa com a gente. Vai lá avisar que ela vai se atrasar um pouquinho. A gente volta. Prometo.
A professora hesitou, mas acabou concordando e se afastou.
Ana estendeu a mão.
— Vem, Gabi. Não dá tempo de chorar. A gente vai dar um jeito nisso.
Gabi relutou, mas segurou a mão dela. De volta ao dormitório, Ana trocou rapidamente de vestido, jogando o seu em cima da cama para não sujá-lo. Colocou um pijama simples, enquanto empurrava Gabi para o banheiro.
— Anda, entra no banho. Eu cuido do cabelo.
Gabi só obedeceu. Entrou no box, enquanto Ana ligava o chuveirinho e começava a remover o chocolate de seus fios. O gesto era delicado. Gabi, aos poucos, foi se acalmando… até que riu.
— Quem diria que na nossa última noite aqui, você estaria me dando banho?
Ana riu junto.
— Só no cabelo! Tira esse vestido e se limpa. Essa parte você pode fazer sozinha.
— De que adianta? Meu vestido está arruinado…
Ana saiu do banheiro para que Gabi terminasse seu banho e gritou do quarto:
— E seja rápida, por favor!
Pouco depois, Ana voltou ao banheiro com um cabide com um vestido verde tom pastel, com pequenos pontos de brilho. Gabi, já enrolada na toalha e com os cabelos molhados, olhou surpresa. Ana, meio tímida, disse:
— Bem… ser indecisa serviu pra alguma coisa. Eu não consegui escolher entre o rosa e o verde na loja… acabei comprando os dois. Acho que era pra ser. Tá aqui, seu novo vestido.

— Ele é lindo — murmurou Gabi, tocando o tecido claro com cuidado, com os olhos brilhando. Sentiu finalmente esperança de que a noite ainda seria ótima.
— Você é um pouco mais alta que eu, mas acho que vai dar certo.
Ana secou seus cabelos, que agora voltavam a formar cachos definidos. Pegou a necessaire da colega e refez uma maquiagem básica.
Gabi observava, surpresa.
— Por que você tá sendo tão legal comigo? Eu nunca fui legal com você.
Ana parou por um segundo, depois respondeu:
— Fiz o que qualquer um faria… E… bem… acho que foi meio por minha causa. O Pedro entrou na festa pra falar comigo. Eu meio que terminei com ele hoje à tarde. Se é que dá pra terminar algo que nem começou…
Gabi arregalou os olhos.
— Espera aí. PARA TUDO. Você tá me dizendo que tava tendo um rolo com o irmão do Marcos… e não com o Marcos?
— Eu não gosto da palavra “rolo”… mas, é, meio que sim.
— EU NÃO TO ACREDITANDO. Eu fui chata com você esse tempo todo porque achei que você gostava do Marcos!
Ana não conseguiu segurar uma risada sincera.
— Meu Deus, Gabi. Em que mundo você vive? Eu e o Marcos somos tipo… irmãos. Eca.
— Mas ele sempre foi tão diferente com você, tão… tão protetor.
— É, igualzinho a um irmão mais velho. Nunca foi mais que amizade.
Gabi levou a mão à testa.
— Eu fui tão boba. Poderíamos ter sido super amigas.
— Bem, ainda dá tempo de sermos super amigas. Agora veste seu vestido, eu vou vestir o meu e a gente vai voltar pra festa. Vai fazer uma entrada triunfal e você vai arrasar no seu discurso.
♡♡♡
O salão vibrou quando Gabi entrou com Ana ao lado. Os colegas bateram palmas, riram alto com alívio.

Gabi, agora com cachos soltos e um vestido novo, fez piada da tragédia:
— Alguém aí pediu fondue de Gabi? Porque foi o que rolou!
A plateia caiu na gargalhada.
Na hora do discurso, ela subiu ao palco com confiança renovada.
— Boa noite, galeraaa! — disse, animada, arrancando aplausos. — Amanhã vai ser um momento único em nossas vidas … mas agora depois de três anos de provas, trabalhos, noites mal dormidas e muitos choros na escada do dormitório feminino… acho que a gente merece rir um pouco.
O discurso misturou piadas internas, homenagens aos professores e alunos, fotos engraçadas no telão e até um vídeo com pequenos depoimentos dos formandos. Era divertido, leve, mas em certos momentos, tocava o coração.
— … e por fim — disse Gabi, com os olhos brilhando — obrigada a cada um que dividiu esses corredores comigo. Especialmente aos que me ensinaram que mesmo nos piores dias, a gente pode encontrar apoio onde menos espera. Essa noite era pra ser perfeita… e foi, mesmo com chocolate no cabelo. Porque eu descobri que a gente não precisa de perfeição pra guardar uma memória incrível. Só de boas pessoas. E uma delas é a Ana. Obrigada por salvar minha noite… e o meu cabelo. Que venham novos começos. Amo todos vocês.
Mais aplausos.
Os alunos se divertiram como nunca, e até Marcos, que sempre foi tão sério, se soltou naquela noite.
E Ana e Gabi sabiam: uma amizade verdadeira acabava de nascer — da forma mais improvável.



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