Caminhos, Chegadas e Suspiros
A estrada de terra serpenteava entre árvores altas e cercas de madeira, enquanto a professora Denise dirigia com segurança e animação. O carro estava cheio de mochilas, risadas e comentários sobre o balanço da estrada.
— Estamos quase chegando! — avisou ela, sorrindo pelo retrovisor.
Quando o chalé apareceu entre as árvores, todos prenderam a respiração por um segundo. Era uma casa charmosa de madeira, com janelas grandes, varanda nos fundos e um deque que dava vista para um lago pequeno e sereno. O cheiro de mato e madeira preenchia o ar.
Na porta, o marido da professora, Ricardo — um homem simpático, de cabelos grisalhos e sorriso fácil — os esperava com uma cesta de frutas.

— Bem-vindos! — disse ele. — A casa está toda preparada para recebê-los. E olha, vou confessar: minha esposa só traz pra cá os alunos mais queridos… e quando eu digo queridos, quero dizer os mais estudiosos.
Gabi e Pedro se entreolharam, depois viraram para Ana e Marcos com uma expressão cúmplice: sabiam exatamente por que estavam ali. Pedro bateu de leve no ombro do irmão e sussurrou:
— Valeu, nerd.
Marcos só deu um sorriso orgulhoso.
A professora entrou com eles, mostrando os cômodos com o entusiasmo de quem ama o lugar. O casal ficaria com o quarto de baixo, mais perto da cozinha, e havia duas suítes no andar de cima.
— Vocês escolhem — disse ela. — …Mas acho que a da direita faz mais sentido para as meninas, já que tem duas camas de solteiro. Na da esquerda, Marcos e Pedro têm um beliche ótimo. Não se preocupem!
— Perfeito — disse Ana, já subindo com sua mochila.
Gabi foi atrás, animada.
— Essa casa é coisa de filme! Já tô achando que o mato não é tão ruim assim…
Os quartos do andar de cima eram aconchegantes, com colchas coloridas, janelas grandes e um leve cheiro de lavanda. A suíte das meninas tinha uma varanda com rede, enquanto a dos meninos tinha vista para o lago.
Assim que ficaram sozinhas no quarto, Gabi abriu os braços no ar e girou.
— Isso aqui é digno de filme! Eu achava que ia odiar mato, mas talvez eu tenha subestimado a experiência “glamping”.
— Glamping? — Ana repetiu, erguendo uma sobrancelha.
— Glamour + camping. Foco no glamour.
Ana riu guardando as mochilas no armário.
Mais tarde, todos se reuniram no deque para um chocolate quente, preparado pelo marido da professora, que parecia ter talento para tudo: pilotava a cozinha com a mesma facilidade com que montava redes e acendia lareiras.
O sol se punha devagar, tingindo o céu de tons de laranja e rosa.
— Isso aqui é um sonho — murmurou Ana, bebericando de sua caneca.
— Um sonho exclusivo pra CDFs — disse Gabi, com um sorrisinho, cutucando Ana de leve.
Pedro ergueu a caneca num brinde silencioso, e Marcos apenas observava, tranquilo, com falsa modéstia por ser o responsável por estarem ali.
Ana levou a caneca aos lábios, mas seus olhos acabaram encontrando Pedro do outro lado do deque. Ele ria de alguma coisa que Gabi dizia, completamente à vontade, como se pertencesse àquele lugar. Ela desviou o olhar antes que ele percebesse.
Desde a tarde na cafeteria, alguma coisa parecia diferente. Não exatamente entre eles — Pedro continuava sendo Pedro, com suas provocações e seu jeito fácil de ocupar qualquer ambiente. A diferença estava nela. Ana estava começando a prestar atenção demais. No sorriso dele, nas coisas que dizia e até na expectativa estranha que sentia quando sabia que passariam algum tempo juntos.
E agora teriam um fim de semana inteiro pela frente.
A ideia era tão animadora quanto inquietante.
Algum tempo depois, Gabi e Pedro entraram para levar as canecas até a cozinha, enquanto Ana permaneceu no deque, apoiada no corrimão e observando as últimas cores do pôr do sol desaparecerem atrás das árvores. Marcos continuou ali, terminando seu chocolate quente.
Ana olhou discretamente para dentro da casa. Gabi conversava com Denise na cozinha, enquanto Pedro dizia alguma coisa que fazia as duas rirem.
Ela respirou fundo e se aproximou de Marcos, ficando ao lado dele diante do lago.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Essa introdução nunca traz coisa boa.
Ana sorriu de leve, mas demorou alguns segundos para continuar.
— Você se importaria?
Marcos franziu a testa.
— Com o quê?
Ela respirou fundo.
— Se acontecesse alguma coisa entre mim e o Pedro.
Por um instante, Marcos apenas a encarou.
— Você tá me pedindo permissão?
— Não! — respondeu rápido demais. — Quer dizer… não sei. Não é permissão. Só queria saber se você ficaria incomodado.
— Por quê?
— Porque ele é seu irmão. E você é meu melhor amigo. Se alguma coisa desse errado…
Marcos pareceu genuinamente incomodado dessa vez.
— Lalitinha, você realmente acha que alguma coisa entre vocês faria eu deixar de ser seu amigo?
— Não é isso.
— Parece um pouco isso.
Ana baixou os olhos.
— Eu só não quero estragar nada.
A expressão dele suavizou.
— Você não vai estragar nossa amizade porque gosta do meu irmão.
Ana levantou imediatamente o rosto.
— Eu não disse que gosto dele.
— Claro. Você veio até aqui perguntar hipoteticamente se eu me importaria caso hipoteticamente acontecesse alguma coisa entre vocês.
— Marcos.
Ele segurou o riso.
— Ana, eu já falei com o Pedro sobre isso faz tempo.
— Você falou?
— Falei. E sabe o que eu disse pra ele? Que você é minha melhor amiga, ele é meu irmão e eu não quero que nenhum dos dois seja idiota com o outro.
Ana ficou alguns segundos em silêncio.
— Então você não se importa?
— Ana, eu me importo com vocês dois. É diferente. — Marcos deu de ombros. — Se acontecer alguma coisa, deixa acontecer. Vocês não precisam da minha autorização.
Ela ficou olhando para ele por alguns segundos, sentindo um alívio que não esperava ser tão grande.
Então se aproximou e o abraçou.
Marcos demorou um segundo para reagir.
— O que é isso?
— Um abraço.
— Eu sei identificar um abraço. Só tô tentando entender por que estou recebendo um.
— Porque às vezes você é um bom amigo.
Ele retribuiu o abraço, dando dois tapinhas nas costas dela.

— Espera! Às vezes?
Ana se afastou.
— Não vamos exagerar.
— Você acabou de vir pedir minha bênção pra namorar meu irmão e eu que não posso exagerar?
— Eu não pedi sua bênção!
— Faltou só perguntar se eu dava a mão dele em casamento.
— Marcos!
Ele começou a rir, desviando quando Ana tentou acertar um tapa em seu braço.
— Você é muito idiota.
— Mas um idiota que deu permissão.
— EU NÃO PEDI PERMISSÃO!
Pedro apareceu na porta do deque naquele exato momento.
— Permissão pra quê?
Ana congelou.
Marcos abriu um sorriso.
— Ela quer uma mão.
— Marcos… — Ana o advertiu entre os dentes.
Pedro olhou de um para o outro, confuso.
— O quê? Mamão? Você tá pedindo mamão?
Marcos precisou conter uma risada.
— É, mamão. A Lalitinha tá querendo mamão.
— Se você estiver com fome, eu posso preparar alguma coisa pra você — ofereceu Pedro, ainda sem entender nada.
Ana lançou um olhar mortal para Marcos.
— Eu não quero mamão nenhum. Seu irmão entendeu tudo errado. — Então olhou para Pedro. — Não se preocupa, Pedro. Eu tô bem.
E entrou na casa antes que morresse de vergonha.
Marcos esperou que ela desaparecesse pela porta antes de começar a rir.
O fim de semana prolongado mal tinha começado, mas já prometia muito mais do que descanso.
♡♡♡
A primeira noite no chalé chegou com uma calmaria acolhedora, o tipo de silêncio que só se ouve longe da cidade — quebrado apenas pelo som dos grilos e do vento leve passando entre as árvores.
Depois de compartilharem uma refeição simples, mas deliciosa, com o casal anfitrião — sopa quente, pão caseiro e bolo de cenoura —, os quatro subiram para os quartos.
No quarto dos meninos, Pedro e Marcos se preparavam para dormir. Pedro estava empolgado, não parava de falar sobre como o lugar era bonito, o cheiro das árvores, a comida, o céu estrelado.
— Você viu aquele céu, mano? Nunca vi tanta estrela. A gente devia dormir lá fora hoje.
— E virar picadinho de mosquito? — respondeu Marcos, rindo. — Melhor aproveitar a cama de verdade por uma noite.
Pedro riu e se acomodou, mas, quando o quarto ficou mais silencioso, seus pensamentos voltaram para Ana.
Desde a cafeteria, ele vinha tentando esquecer aquele instante diante da estante. Não estava funcionando. Antes, provocar Ana e vê-la sem graça já parecia suficiente. Agora queria descobrir mais: o que a fazia sorrir daquele jeito, o que ela sonhava para depois do colégio, quantas outras pequenas coisas sobre ela ainda não conhecia.
E talvez fosse isso que mais o assustasse.
Ele não queria apenas chamar a atenção dela. Queria que Ana começasse a enxergá-lo de verdade.
No quarto das meninas, Gabi acendeu as luzinhas de fada que tinha levado na mochila “por estética”, segundo ela. As duas se ajeitaram nas camas, de frente uma para a outra.
— Aquele bolo… meu Deus — disse Ana, com a voz sonolenta.
— Se eu morasse aqui, comeria e dormiria o dia inteiro. Viraria um bicho preguiça fashion — respondeu Gabi, com um sorriso.
A casa inteira foi aos poucos se acalmando, luzes apagadas, conversas murmuradas, e um clima sereno tomando conta.
Já deitada, Ana ficou olhando para o teto, ouvindo o som do vento lá fora. A conversa com Marcos continuava voltando à sua cabeça.
Uma das coisas que mais a preocupavam parecia, de repente, muito menor. Marcos não estava incomodado. Não achava estranho. E, acima de tudo, não enxergava aquilo como algo capaz de mudar a amizade entre eles.
Mas ainda havia todo o resto.
Pedro era mais novo. Não por muito, ela sabia, mas estavam em momentos diferentes. No ano seguinte, ela já teria deixado o Monte Vale, enquanto ele ainda teria dois anos pela frente.
Era exatamente por isso que sempre acabava recuando.
Tentava descobrir como aquilo terminaria antes mesmo de permitir que começasse.
Deixa acontecer.
Talvez Marcos tivesse razão.
Ela não precisava decidir o próximo ano naquela noite. Nem a faculdade. Nem a distância. Nem o que Pedro significaria na vida dela dali a alguns meses.
Naquele fim de semana, ela podia simplesmente parar de pensar tanto e aproveitar o que estava acontecendo agora.
Gabi suspirou e, num tom mais suave, comentou:
— Valeu por me chamar. De verdade. Achei que ia odiar esse lugar… mas até que tá sendo especial.
Ana sorriu no escuro.
— Eu também tô gostando mais do que imaginei.
E, naquele momento, percebeu que não estava falando apenas do chalé.



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