Chocolate, Tensão e Decepção
Enquanto a formatura era uma cerimônia solene e emocionante, repleta de pais orgulhosos e becas alinhadas, o coquetel era o oposto: uma festa leve só dos formandos, divertida, repleta de risos e lembranças. Era o momento de comemorar os anos vividos ali, com gargalhadas sinceras e abraços demorados.
O refeitório, agora transformado em salão de festas, estava impecável. Mesas bem decoradas, repletas de docinhos e salgados, suqueiras elegantes com bebidas geladas, bandejas de frutas frescas e as tão esperadas fontes de chocolate, imponentes, ocupavam o centro da decoração.
Os alunos estavam deslumbrantes. Os rapazes com seus trajes esporte fino — calças sociais, blazers, camisas bem passadas. As meninas, impecáveis em vestidos elegantes, penteados elaborados e maquiagens caprichadas.
Gabi foi escolhida para ser a oradora da turma naquela noite, mas nada de discurso inspirador sobre o futuro — isso ficaria por conta do orador oficial da formatura, que, obviamente, era Marcos. A função de Gabi, que sempre fora engraçada e carismática, era preparar uma apresentação com fotos, vídeos engraçados e piadas internas. A plateia estava ansiosa — não por frases profundas, mas por reviver, por alguns instantes, a magia dos anos de colégio.
Gabi estava mais linda do que nunca. Era sua noite de brilhar. Vestia um modelo verde-oliva de seda que destacava perfeitamente seus olhos, sandálias douradas de salto fino e um penteado sofisticado com os cachos alisados pela chapinha. A maquiagem ressaltava ainda mais sua beleza natural. Ela era o centro das atenções.
Marcos usava um blazer azul-marinho com calça combinando, camisa branca e tênis brancos. Ao seu lado, Ana estava radiante em um vestido de tule rosa-claro, cabelos ondulados semi presos e uma maquiagem leve, mas encantadora. Conversavam com um grupo de amigos, mas Ana, por dentro, ainda pensava na conversa com Pedro, horas antes. Tentava ao máximo manter-se presente, sorrir, aproveitar aquele momento único.

Enquanto os discursos não começavam, os formandos aproveitavam para tirar fotos nos murais decorados com acessórios engraçados: óculos escuros com a palavra “Formei”, placas com frases como “Sobrevivi ao ensino médio” e faixas de “Miss Atrasada” ou “Mister Sumido”. A atmosfera era alegre, vibrante, e tudo caminhava perfeitamente… até Pedro aparecer.
Ansioso demais para esperar o dia seguinte, ele decidiu invadir a festa. Não era formando, então sabia que corria o risco de ser barrado. Para evitar os professores, se escondeu debaixo das mesas compridas, cobertas com toalhas elegantes. Seu objetivo: encontrar Ana e conversar com ela de qualquer forma.

Por ironia do destino, Gabi, bem em frente a uma das fontes de chocolate, abaixou-se para arrumar a alça da sandália que havia se soltado. No exato momento, Pedro saiu debaixo da mesa.
E foi o caos.
No susto, ele se desequilibrou e esbarrou na mesa. Uma das fontes tombou, despejando uma cascata de chocolate derretido diretamente sobre Gabi.

O vestido. Os cabelos. Tudo coberto.
O silêncio tomou conta do salão por dois segundos. Então, um coro de exclamações:
— Meu Deus!
— Foi o Pedro?
— A Gabi!!!
Gabi saiu correndo em disparada, deixando um rastro de chocolate pelo chão.

Ana, atônita, correu até Pedro.
— Pedro, o que você fez?
— Ana, eu preciso falar com você, eu…
— Agora não, Pedro! — disse ela, decepcionada. Sem esperar resposta, saiu correndo atrás de Gabi.
Marcos se aproximou de Pedro, indignado:
— Cara, você ficou louco? O que você veio fazer aqui?!
Antes que Pedro respondesse, um professor surgiu ao lado deles:
— Você precisa sair, Pedro. Agora.
Outra professora, preocupada, interrompeu:
— Eu vou ver como a Gabi está.
Ela saiu apressada, enquanto Pedro, sozinho, permanecia parado no meio do salão, sem saber o que doía mais: o peso da vergonha ou o olhar de decepção de Ana.
Pedro saiu do salão sob os olhares pesados de professores e alunos. O som abafado da festa ainda ecoava atrás de si, mas para ele tudo parecia distante. Seus passos eram rápidos, mas o peito parecia cada vez mais apertado.
Como fui capaz de fazer isso?
Ele parou em frente ao dormitório masculino, sem saber como chegou ali, ainda bem que seus pés sabiam o caminho, porque a cabeça não conseguia pensar corretamente. Ainda podia sentir o cheiro do chocolate derretido, ainda via o olhar decepcionado de Ana. Não raiva. Não desprezo. Decepção. Aquilo doía mais.
Eu só queria falar com ela. Dizer que eu não aguentava mais aquele silêncio, que tudo mudou desde que a conheci…
Mas em vez disso, estraguei a noite dela. Da Gabi. E a minha.
Sentou-se nos poucos degraus da entrada do prédio, o rosto entre as mãos. O coração parecia bater no ritmo do desastre. Ele havia planejado tanto aquele momento. Não da melhor forma, talvez — mas com o coração.

Por que tudo comigo tem que sair errado?
Lembrou da conversa daquela tarde. Ana estava diferente. Mais distante. Como se já tivesse escolhido seguir sem ele. E agora, depois do vexame, talvez tivesse mesmo.
Será que já era?
Ele se levantou e chutou uma pedrinha do chão com força, como se pudesse tirar dali a frustração que transbordava. Pela primeira vez, teve medo. Medo de não ser mais parte do mundo dela.
Medo de perdê-la de verdade.



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