Pais, Conversas Sérias e Palavras Duras
O sol de sábado iluminava o campus da escola com uma energia leve e festiva. O fim de semana da formatura finalmente havia chegado, e as últimas horas dos alunos naquele lugar já estavam carregadas de nostalgia e expectativa. Pelos corredores e jardins, pais e familiares chegavam, explorando o local onde seus filhos haviam vivido momentos tão marcantes.
Ana se ajeitava em frente ao espelho do dormitório feminino, alisando inutilmente a camiseta que usava. Seu coração batia mais rápido que o normal. Não era pela formatura em si, mas porque finalmente conheceria os pais de Marcos e Pedro. Por três anos, ela ouvira comentários e elogios sobre eles, e agora estava prestes a ser apresentada oficialmente.
No pátio em frente ao dormitório masculino, uma agitação discreta tomava conta do lugar. Vários pais chegavam com presentes, flores, ou apenas com olhos marejados. Marcos avistou Ana se aproximando e acenou com um sorriso contido, o de sempre. Ao lado dele, Pedro e um casal elegante aguardavam com expressão curiosa.
— Pai, mãe… quero que conheçam a Ana. Minha colega. E melhor amiga desde o primeiro ano.
A mãe abriu um sorriso radiante, deu dois passos à frente e abraçou Ana.

— Ah, então você é a famosa Ana! É uma honra te conhecer finalmente. Faz três anos que ouvimos falar de você como se fosse uma lenda lá em casa.
O pai apertou a mão de Ana com firmeza e simpatia.
— Ficamos muito felizes que o Marcos tenha tido alguém tão próximo durante esses anos. E soubemos que você também passou em Medicina, na mesma federal que ele. Parabéns! Parece que vocês realmente fizeram planos para continuar juntos.
Ana sorriu, mas era um sorriso amarelo, sutil. O mesmo sorriso que dava sempre que alguém falava sobre o futuro. Ainda assim, estava verdadeiramente feliz por conhecer os pais dos meninos. Sentia-se acolhida.
A mãe de Marcos sorriu para Ana, ainda segurando uma de suas mãos.
— E os seus pais, querida? Também vêm para a formatura amanhã?
— Sim! Eles chegam amanhã de manhã. Tentaram reservar um hotel por aqui, mas, como é o fim de semana da formatura, estava tudo lotado.
— Imagino a correria! — comentou a mulher, com simpatia. — Nós vamos ficar em um hotel por aqui. Felizmente, conseguimos reservar com antecedência.
— Pelo menos amanhã vamos poder comemorar juntos — disse Ana, sorrindo.
Despedindo-se com um aceno gentil, ela deixou os três conversando.
Por alguns minutos, eles ficaram ali, observando o movimento dos alunos, e comentando entre si.
— Que menina adorável — disse a mãe. — Parece até que já é da família.
— Quem sabe? — soltou Marcos, distraidamente, sem perceber a reação que provocaria.
A mãe arregalou os olhos, vibrando:
— Ai, que maravilha, Marcos! Sempre achei que, do jeito que você falava dela, tinha algo a mais. Vocês combinam tanto! Vai dar super certo, ainda mais indo pra mesma faculdade…
Marcos ergueu uma mão, interrompendo.
— Mãe… que bom que você quer ela como nora, mas… o Romeu aqui não sou eu. Quem gosta dela de um jeito diferente é o Pedro.
Ele olhou para Pedro, que estava mais afastado, observando a cena com um olhar perdido. A mãe franziu a testa.
— Eu e a Ana somos amigos, só isso. Nunca passou disso. Mas ela e o Pedro… Eles têm algo especial.
A mãe encarou Pedro, tentando entender, e disse:
— Acho que precisamos conversar.
Entraram no prédio e sentaram-se nos sofás da recepção do dormitório masculino. Pedro se acomodou desconfortável, enquanto os pais se entreolhavam.
Do lado de fora, Ana caminhava de volta ao dormitório quando se lembrou do livro que emprestara a Marcos. Ela voltou para buscar. Ao se aproximar, escutou vozes vindas da recepção e reconheceu que eram dos pais de Marcos e Pedro:

— Eu fico um pouco preocupada, Pedro — disse a mãe. — Não porque ache que você não sabe o que está sentindo, mas porque vocês estão prestes a começar uma fase completamente diferente. Ela vai estudar longe daqui, você também vai seguir seu caminho… E um relacionamento à distância pode ser mais difícil do que parece, ainda mais com uma menina mais velha.
— Ela só tem um ano a mais — rebateu Pedro. — E eu sei que a distância vai ser difícil, mas não acho que isso seja motivo pra desistir antes mesmo de tentar. Eu gosto dela de verdade.
O pai interveio:
— Filho, talvez vocês consigam fazer dar certo. Talvez não. Ninguém pode saber agora. Só não tome uma decisão pensando que precisa resolver o futuro inteiro hoje. Dê tempo ao tempo. Se ela for a garota certa mesmo, Deus vai levar vocês ao mesmo caminho de novo.
Ana permaneceu parada por alguns segundos, ainda escondida no corredor. As palavras dos pais de Pedro se misturaram às próprias dúvidas que vinha tentando ignorar desde que descobrira o resultado do vestibular. Faculdade, distância, futuro… de repente, tudo parecia grande demais. Ana engoliu em seco. Sentiu o chão fugir um pouco. Entrou timidamente e se aproximou.
— Marcos… vim pegar aquele livro que te emprestei.
Marcos levantou imediatamente e subiu para o quarto. Ana permaneceu em silêncio ao lado de Pedro, envergonhada. Não sabia se tinham percebido que ela ouvira tudo.
Pedro, com a cabeça baixa, não conseguia olhar para Ana. Temia que ela tivesse ouvido a conversa. O rubor em seu rosto e o clima estranho no ar quase lhe davam a certeza de que sim.
Quando Marcos voltou, entregou o livro a ela. Ela agradeceu e logo pediu:
— Pedro, podemos conversar?
Saíram para uma caminhada entre as árvores que cercavam o campo de esportes. Ana respirou fundo.
— Eu escutei a conversa com seus pais — disse Ana, sem rodeios.
Pedro suspirou, preocupado.
— Ana, não se preocupe com isso. Eu não me importo com o que eles disseram.
— Mas você devia pensar nisso. Eles só estão preocupados porque querem o melhor pra você. E… talvez tenham razão. Um relacionamento à distância não vai ser fácil. A gente nem sabe como nossas vidas vão estar daqui a alguns meses.

Pedro ficou em silêncio, o rosto sombrio. Olhava o chão, chutando uma pedrinha.
— Talvez seja melhor a gente continuar sendo amigos.
— “Talvez”? Você não parece estar convencida disso.
— Eu não estou. Esse é justamente o problema.
— Ana…
— Me escuta, por favor. Você é incrível, mas isso pode acabar nos magoando mais pra frente. Não quero isso pra você. Nem pra mim.
— Você está falando isso só porque ouviu o que eles disseram? Ou é o que você realmente quer?
— Eu gosto de você, Pedro. Muito. Mas não acho que agora seja o momento certo. Prefiro preservar o que temos, nossas boas lembranças, do que arriscar e nos machucar. Eu já estou tentando entender o que vou fazer da minha própria vida.
— Então você está falando isso porque não sabe o que quer?
— Estou falando porque gosto de você o suficiente para não fingir que sei.
Pedro desviou o olhar, ferido.
— Amanhã a gente conversa melhor, tudo bem? — disse ela suavemente. — Agora preciso me preparar pro coquetel de formandos.
Ela se despediu, deixando Pedro sozinho, com o coração apertado, tentando entender se estava perdendo algo que nem ao menos havia começado direito.



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