Chuva, Sol e Sentimentos
Na manhã de sexta-feira, o dia amanheceu chuvoso e com um friozinho leve, o que, num primeiro momento, desanimou um pouco o grupo. Ainda assim, conseguiram aproveitar a companhia uns dos outros e passar momentos agradáveis.
Durante a manhã, as meninas ajudaram com a louça do café e, em seguida, deram uma mão nos preparativos do almoço com a professora Denise. Enquanto isso, mesmo sob a chuva fina, os meninos se animaram a ajudar Ricardo a cortar lenha para a lareira — ou, ao menos, tentaram.
Depois do almoço, a tarde foi preenchida por partidas animadas da vasta coleção de jogos de cartas e tabuleiros da professora.
A chuva batia suave nas janelas do chalé, enquanto o grupo se acomodava na sala acolhedora, aquecida pelo crepitar da lareira recém-abastecida. Denise e Ricardo arrumavam a cozinha, e os quatro jovens empilhavam caixas de jogos sobre a mesinha de centro. Após algumas discussões e opiniões divergentes, o escolhido foi Palavra Secreta.
— A gente se divide em duplas — explicou Marcos, pegando o baralho com as palavras e posicionando uma pequena ampulheta no centro. — Um dá as dicas, o outro adivinha. Quem acertar mais dentro de um minuto, vence a rodada.
Ao sortear as duplas, Ana e Marcos acabaram juntos, como sempre. Gabi olhou para os dois e comentou, em tom dramático:
— Claro. Tinha que ser a dupla imbatível.
A partida começou e, como esperado, Ana e Marcos mostraram sintonia e velocidade impressionantes. Gabi e Pedro, por outro lado, não conseguiram marcar quase nenhum ponto. Quando a primeira rodada terminou, Ana e Marcos saíram vencedores.
Gabi largou as cartas sobre a mesa.
— Não tem como competir com dois gênios. Isso devia ser proibido pelas regras.
Pedro riu.
— Então vamos trocar as duplas.
— Boa ideia — disse Marcos, sorrindo com leve deboche. — Vai que assim alguém tem chance.
Na nova formação, Marcos e Gabi começaram surpreendentemente bem.
— Tá vendo? — comemorou Gabi depois de acertar mais uma palavra. — Finalmente me deram um parceiro funcional.
— Você perdeu a rodada anterior comigo — Pedro lembrou.
— Exatamente o meu ponto.
Marcos riu e balançou a cabeça.
Mas Ana e Pedro também começaram a acumular pontos. Para surpresa de todos, os dois pareciam se entender com uma facilidade inesperada. A cada palavra acertada, trocavam olhares cúmplices e sorrisos, como se estivessem descobrindo uma sintonia que nenhum dos dois sabia que existia.
Até que, em uma das rodadas, Ana pegou a carta e leu rapidamente: Julia Roberts.
Ela sorriu, já sabendo qual pista daria. Olhou para Pedro e disse com naturalidade:
— Uma linda mulher.
Pedro a olhou nos olhos e, sem hesitar, respondeu com um sorriso torto:
— Você.
Ana arregalou os olhos, pega totalmente de surpresa, e sentiu o rosto esquentar.

— Não, Pedro… foco no jogo — respondeu, tentando esconder o sorriso.
Ele continuou olhando para ela, claramente satisfeito com a reação que havia conseguido.
Ana balançou a cabeça e tentou se concentrar novamente.
— Atriz de “Um Lugar Chamado Notting Hill”.
— Julia Roberts!
— Finalmente!
Os dois riram.
Marcos acompanhou a troca por alguns segundos. Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto, mas ele não disse nada e voltou a organizar as cartas para a rodada seguinte.
Gabi estava ocupada demais marcando os pontos para prestar atenção.
Quando a partida terminou, Ana e Pedro haviam vencido.
Gabi encarou a pontuação como se tivesse acabado de sofrer uma grande injustiça.
— Eu me recuso a jogar de novo com qualquer pessoa que tenha o cérebro da Ana como adversário.
— Aceite a derrota com dignidade — provocou Ana.
— Jamais.
Gabi se levantou teatralmente e caminhou até a varanda.
— Vou respirar ar puro antes que eu exija uma revanche.
Mas, assim que abriu a porta, parou.
— Gente…
Os outros se aproximaram.
A chuva havia diminuído, o céu começava a se abrir e um lindo arco-íris surgia no horizonte, atravessando as nuvens ainda acinzentadas.

Por alguns instantes, a competição foi esquecida.
A noite seguiu leve e divertida, com conversas e risadas ao redor da mesa durante o jantar, que teve como destaque as deliciosas pizzas caseiras preparadas por Ricardo. Eles foram dormir esperançosos por um sábado de céu limpo e sol brilhando.
♡♡♡
As preces foram atendidas, e o sol da manhã invadiu suavemente os quartos do chalé, filtrado pelas janelas de madeira e cortinas claras. O cheiro de pão assando e café fresco logo se espalhou pela casa, misturado ao perfume da mata úmida lá fora.
No andar de cima, Ana foi a primeira a acordar. Espreguiçou-se, abriu a janela e sorriu ao ver a neblina se dissipando lentamente entre as árvores. Colocou uma blusa leve e desceu devagar, encontrando a professora na cozinha.
— Bom dia, Ana. Dormiu bem?
— Dormi, sim! Esse lugar é incrível — respondeu ela, pegando uma caneca de chá quente.
Gabi apareceu em seguida, com os cachos presos em um coque alto, enrolada em um moletom fofo.
— Tem pão de verdade? Não acredito! — disse, animada. — Esse café já tá valendo a viagem!
Pouco depois, Pedro desceu com os cabelos bagunçados, rindo sozinho.
— Eu sonhei que fui atacado por uma cabra gigante. Tem alguma cabra aqui?
— Só se for você mesmo — disse Marcos, descendo logo atrás, já arrumado e com cara de quem acordara cedo.
— Feliz aniversário, Pedro! — Ana se aproximou para um abraço meio sem jeito. Havia planejado aquilo a manhã inteira, mas era impossível não ficar nervosa.
— Muito obrigado, Lalitinha — respondeu ele, abraçando-a apertado.

Pedro ficou tão surpreso quanto contente com a aproximação inesperada vinda dela.
Todos o parabenizaram. Depois, seguiram para a mesa, onde o maravilhoso café os aguardava.
Depois do café, Denise e Ricardo propuseram uma pequena trilha até um mirante próximo, e todos concordaram com empolgação. A professora entregou garrafinhas de água e avisou que a caminhada era curta, mas que algumas pedras poderiam estar escorregadias por causa da chuva do dia anterior.
Durante o trajeto, Ana e Marcos iam à frente, rindo de piadas internas e tirando fotos da paisagem. Gabi, que tentava filmar tudo com o celular, quase escorregou em uma pedra, e Pedro gargalhou.
— Não dá pra te levar a lugar nenhum — brincou ele.
— Fala isso depois que escorregar — respondeu ela, apontando para o tênis branco dele. — Duvido isso aí voltar do mesmo jeito.
Ao chegarem ao mirante, ficaram em silêncio por alguns segundos.
A vista era deslumbrante: um vale verde se abria à frente, com montanhas suaves ao fundo e um rio serpenteando entre as árvores.
— Uau — disse Ana, baixinho.
— Valeu a pena sair da cama — completou Gabi.
Denise pediu o celular de Gabi e se ofereceu para fotografar os quatro. Eles fizeram algumas poses divertidas, entre sorrisos e caretas, enquanto Ricardo ria das tentativas de todos caberem no enquadramento.
Ficaram ali por mais alguns minutos, respirando fundo e contemplando a paisagem, como se o tempo tivesse parado.
Na volta, Marcos e Gabi acabaram seguindo alguns metros à frente, discutindo qual das fotos tinha ficado melhor. Denise e Ricardo caminhavam mais atrás, conversando tranquilamente.
Sem perceber exatamente quando aquilo tinha acontecido, Ana e Pedro ficaram lado a lado no meio do caminho.
Por alguns instantes, caminharam em silêncio.
— Posso te perguntar uma coisa? — Pedro disse.
Ana olhou para ele.
— Depende.
— Você já sabe o que vai fazer quando sair do Monte Vale?
Ana soltou uma risadinha.
— Bem, nesse fim de semana eu não pretendo pensar nisso.
— Justo.
Ele caminhou mais alguns passos antes de completar:
— Pergunto segunda-feira.
Ana olhou para ele, divertida.
— Você não desiste fácil, né?
— Ainda não.
Ela balançou a cabeça, mas continuou sorrindo.
Dessa vez, não acelerou o passo nem procurou uma desculpa para alcançar Marcos.
Continuou caminhando ao lado de Pedro até o chalé.
Quando chegaram, todos se espalharam pela cozinha para ajudar a preparar o almoço.



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