Um Diário, Uma Lembrança e Um Recomeço
Algumas semanas após a formatura, Pedro estava em casa, tentando não pensar em Ana. Fingiu que havia seguido em frente, mas a verdade era que não conseguia parar de se perguntar por onde ela andava.
Marcos apareceu no quarto do irmão. Pedro estava diante do computador, concentrado no jogo, os dedos ágeis no teclado e a atenção tão distante do mundo ao redor que mal percebeu a entrada de Marcos. Só quando o irmão se aproximou é que soltou um resmungo, sem tirar os olhos da tela:
— Se for pra falar da minha bagunça, a porta tá logo ali.
— Relaxa, tô só procurando meu livro de química… — respondeu Marcos, vasculhando a estante.
— Acho que não tá aqui — comentou Pedro depois de alguns segundos, sem nem olhar para o irmão que mexia em sua estante bagunçada. Mesmo assim, Marcos não saiu do quarto. Em vez disso, apoiou-se no batente da porta e disse casualmente:
— Falei com a Ana ontem.
Pedro congelou por um instante, mas logo disfarçou:
— Que bom. E aí, Senhor Certinho, tudo certo com sua sócia na faculdade?
— Na verdade… não. Ela desistiu de Medicina.
Pedro o olhou, surpreso.
— O quê?
— Conseguiu uma vaga em um projeto de voluntariado na Amazônia. A Kayla, irmã do Luca, dividiu o quarto com a Ana no primeiro ano. Ela voltou pra formatura do irmão e acabou incentivando a Ana a conhecer esse tipo de trabalho. Os pais dela ficaram um pouco receosos no início, mas acabaram permitindo que ela tirasse esse tempo pra se conhecer melhor. Afinal, ela ainda vai fazer dezessete anos daqui a alguns dias e estaria começando a faculdade bem mais cedo que a maioria.
Pedro encarou o irmão por um tempo, tentando entender. Seu coração deu uma batida diferente.
— Ela… ela não falou nada.
— Ela não tinha nada decidido até poucos dias atrás. E… bem, vocês concordaram em não manter contato, né? — Marcos cruzou os braços, mas logo suavizou o tom. — Mas, Pedro… ela parecia em paz. Pela primeira vez, vi a Ana sorrir daquele jeito, sem precisar fingir força quando falava sobre o futuro. Acho que, de tanto eu falar em Medicina desde o primeiro ano, ela entrou na minha onda também. Mas talvez nunca tenha sido o que ela realmente quis.
Pedro ficou em silêncio por alguns segundos, como se tentasse assimilar tudo. Depois, levantou-se de repente.
— Me faz um favor?
— Claro.
— Você consegue o endereço exato de onde ela vai ficar?
Marcos o encarou por um instante, entendendo. Depois, assentiu com um leve sorriso.
— Dou um jeito. Por quê?
— Porque eu preciso mandar uma coisa pra ela.
Pedro foi até o armário, abriu a porta e puxou um pacote retangular, cuidadosamente embrulhado em papel pardo e amarrado com um cordão simples.
— Isso é o quê? — perguntou Marcos.
— Um presente. Comprei faz um tempo. Ia dar pra ela na formatura, mas… as coisas não saíram como eu esperava. Acho que agora vai ser um bom presente de aniversário, né?
Pedro retirou o cordão simples e abriu cuidadosamente o embrulho. Dentro havia um diário de couro marrom envelhecido, com costuras feitas à mão e uma pequena fechadura metálica em forma de abelha.
— Um diário? — Marcos perguntou, curioso.
— É. — Pedro passou os dedos pela capa, observando o presente. — Só que ainda falta uma coisa.
Ele pegou uma caneta, abriu o diário na primeira página e ficou alguns segundos pensando no que escrever. Então, com sua letra meio torta e apressada, acrescentou uma dedicatória.

Quando terminou, fechou o diário com cuidado, voltou a embrulhá-lo e prendeu ao cordão uma pequena etiqueta com o nome de Ana e a mensagem “Feliz aniversário!”.
— Pronto — murmurou, segurando o pacote entre as mãos.
Marcos não fez mais perguntas. Apenas observou o irmão por um instante, com um sorriso discreto, antes de sair do quarto.
♡♡♡
Uns dois dias depois do aniversário de Ana, o pacote chegou ao albergue onde Ana estava hospedada.
Ela entrou no quarto exausta. Os cabelos estavam presos em um coque improvisado e bagunçado, e suas mãos ainda tinham pequenas manchas das tintas que as crianças haviam usado naquela tarde.

Depois de um dia cheio de atividades, ela só queria tomar banho e descansar. Mas, ao perceber um pacote sobre sua cama, parou no meio do quarto.
O embrulho de papel pardo com um cordão simples trazia o nome de Ana escrito à mão, com uma letra meio torta e apressada. Logo abaixo, havia uma mensagem simples: “Feliz aniversário!”
Ana sorriu de leve. Aquilo tinha muito a cara de Pedro.
Ela se aproximou, curiosa, e desfez o embrulho com cuidado.
Dentro, havia um diário de couro marrom envelhecido, com costuras feitas à mão e uma fechadura metálica em forma de abelha. Ana passou os dedos pela superfície da capa, sentindo o relevo do pequeno detalhe.
Abriu o diário devagar.
Na primeira página, encontrou a dedicatória:
“Pra você anotar suas descobertas pelo mundo, calcular o número de estrelas que ver à noite… e lembrar que tem alguém por aqui pensando em você.”
— Pedro
No rodapé da página, havia um pequeno desenho: uma abelha voando em espiral ao redor de um foguete.

Ana soltou uma risadinha, com os olhos marejados. Reconheceu naquele desenho um pouco da personalidade de Pedro, aquela mistura de criatividade e humor que sempre conseguia surpreendê-la.
Ela passou os dedos pela dedicatória mais uma vez e, então, abraçou o diário contra o peito, como se pudesse, por um instante, abraçar Pedro também.



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