Decisões, Coragem e Partidas
Ana caminhava devagar em direção ao prédio do dormitório feminino quando encontrou Gabi saindo com uma mala.
— Ei, Ana! Achei você! — Gabi exclamou. — Meus pais já estão me esperando no carro, mas eu fiquei enrolando pra arrumar a última mala até que vi você vindo, não podia deixar de me despedir de você.
Ana sorriu.
— Você fala como se estivesse indo para outro planeta.
— Pois é. Eu vou passar o próximo ano fazendo um intercâmbio na Europa, até decidir o que quero fazer. Bem… na verdade… talvez eu precise de mais tempo para conhecer tudo… quer dizer, decidir o que quero, pelo menos foi o que eu disse para meus pais — ela deu uma piscadinha para Ana.
As duas riram, mas logo o silêncio trouxe de volta a sensação de que aquela era realmente a última tarde no Monte Vale.
Gabi olhou para Ana com carinho.
— Sabe, eu nunca imaginei que a gente fosse ficar tão próxima. Quando cheguei aqui, achei que você e o Marcos fossem inseparáveis de um jeito que não deixava espaço para mais ninguém.
Ana a escutou, surpresa com a sinceridade.
— Eu sei. Você chegou a pensar que existia alguma coisa entre nós.
Gabi fez uma careta envergonhada.
— Pois é. Eu fiquei criando histórias na minha cabeça. Acho que perdi tempo tentando entender uma coisa que nem era real.
— Mas agora você sabe que o Marcos é praticamente meu irmão — Ana respondeu, sorrindo. — E que você pode fazer parte da minha vida sem precisar disputar espaço com ninguém.
Gabi sorriu, emocionada.
— É justamente isso que eu queria dizer. Eu tenho muitos amigos, conheço bastante gente, mas você… você virou uma pessoa muito importante para mim. Acho que é a primeira vez que sinto que encontrei alguém com quem posso conversar sem ficar pensando no que a pessoa vai interpretar. Alguém com quem posso ser eu mesma. E, se você foi capaz de me perdoar por toda a minha chatice, é porque você é alguém realmente especial.
Ana sentiu o peito aquecer.
— Eu também sinto isso. Nossa amizade começou de um jeito diferente, mas fico feliz que tenha acontecido.
— Mesmo depois de eu ter quase perdido a dignidade inteira por causa de uma fonte de chocolate?
— Principalmente depois disso — Ana brincou.
Gabi deu uma risada e logo a abraçou.
— Promete que a gente não vai perder contato? Não quero que, daqui a alguns meses, a gente vire aquelas pessoas que só curtem as fotos uma da outra e dizem que precisam marcar alguma coisa, mas nunca marcam.
Ana apertou o abraço.
— Prometo. Você não vai se livrar de mim tão facilmente. Vamos conversar, trocar mensagens, fazer chamadas de vídeo… e, quando der, vamos nos visitar.
— Mesmo se você estiver no meio da Amazônia?
Ana se afastou um pouco, olhando para ela surpresa.
— Como você sabe disso?
— Eu estava no banheiro mais cedo e ouvi a conversa toda. Não quis sair e atrapalhar seu momento com a sua melhor amiga — explicou Gabi, com um leve tom de ciúme. — Mas o que importa mesmo é que isso é muito a sua cara! Eu sabia que você ia aceitar.
— Ainda não tem nada certo, eu nem falei com meus pais — disse Ana, com um sorriso tímido. Gabi, porém, percebeu o brilho em seu olhar. — Mas, se eu realmente for, vou adorar saber das coisas que acontecem fora das atividades de voluntariado, principalmente de como é a Europa.
— Então está combinado. Quero receber notícias de tudo. Das coisas boas, das ruins e até das histórias estranhas que você provavelmente vai viver por lá.
— Pode deixar.
Gabi respirou fundo, tentando controlar a emoção.
— Eu queria ter me aproximado de você antes.
— Não importa quando começou, Gabi. Importa que começou. E não precisa ter ciúme da Kayla; você também é uma grande amiga.
— Aii, para, senão vou chorar! — falou ela, abanando os olhos já marejados.
Gabi sorriu, com os olhos brilhando, e a abraçou. Mas não conseguiu esconder que estava emocionada.

Quando finalmente se afastaram, Gabi limpou discretamente o canto dos olhos e recuperou o sorriso brincalhão.
— Certo. Se eu continuar aqui, vou começar a chorar de verdade e estragar minha última foto de formatura.
— Você pode chorar. Eu não vou contar para ninguém.
— Quer saber, acho que não tem problema nossa última foto ser espontânea e com lágrimas nos olhos, alguém me disse que eu fico mais bonita quando estou distraída.
As duas riram mais uma vez e tiraram a última selfie juntas.
Gabi deu alguns passos em direção ao estacionamento, ainda olhando para Ana.
— Até logo, amiga. Não vou dizer adeus porque ainda temos muita coisa para viver juntas.
— Até logo, Gabi.
Ana a observou se afastar, sentindo uma mistura de saudade antecipada e gratidão. A amizade das duas tinha começado com desconfiança, ciúmes e um acidente desastroso. Agora, Gabi era uma das pessoas com quem Ana mais desejava continuar compartilhando a vida.
E ela sabia que aquela amizade não terminaria só porque o Monte Vale deixaria de ser o lugar onde se encontravam todos os dias.
♡♡♡
Gabi estava quase chegando ao estacionamento quando ouviu alguém chamá-la.
— Gabi, espera um pouco.
Ela se virou e encontrou Marcos caminhando em sua direção, com os óculos ligeiramente baixos no nariz.
— Oi, Senhor Certinho — ela cumprimentou, recuperando o sorriso. — Veio conferir se estou indo embora no horário correto?
Marcos soltou uma risada.
— Eu sabia que você não conseguiria passar um dia inteiro sem fazer alguma piada comigo.
Marcos olhou para ela, tentando encontrar as palavras certas.
— Eu queria me despedir antes de você ir.
Por um momento o menino com todas as respostas na ponta da língua não soube o que dizer. Após um tempo, o pensamento saiu de seus lábios sem perceber.
— Vou sentir sua falta.
— Sério? — Gabi perguntou, realmente surpresa. Não esperava aquilo, ainda mais agora que estavam indo em direções totalmente diferentes. — Quer dizer, é claro que vai! Quem não sentiria?! — brincou, tentando disfarçar a surpresa.
— Sim — ele disse timidamente, percebendo que aquilo era realmente o que estava sentindo.
Havia algo diferente naquele momento, uma sensação que ele não sabia muito bem como explicar. Ele tinha se acostumado a encontrar Gabi nos corredores, a ouvir suas provocações.
Agora, porém, ela estava prestes a ir embora.
E, de repente, Marcos percebeu que não havia nenhuma razão concreta para Gabi continuar fazendo parte de sua rotina. Eles não estudariam mais juntos, não se encontrariam todos os dias no refeitório e não teriam mais as mesmas aulas ou os mesmos compromissos.
Era perfeitamente natural que cada um seguisse seu caminho.
Ainda assim, um aperto estranho surgiu em seu peito.
Marcos franziu discretamente a testa, incomodado com a própria reação. Não fazia sentido sentir aquilo. Ele mesmo havia colocado limites bem definidos em sua relação com ela.
Mas a ideia de não vê-la mais com frequência pareceu muito menos agradável do que deveria.
— O que foi? — Gabi perguntou, percebendo a mudança em sua expressão.
— Nada. Só estava pensando.
— Isso eu já imaginava. Você pensa até quando não precisa.
Marcos riu, balançando a cabeça.
Havia alguma coisa naquele momento que parecia pedir uma palavra a mais, uma pergunta, talvez uma confissão. Marcos teve a impressão de que Gabi também esperava algo, embora nenhum dos dois soubesse exatamente o quê.
Ele poderia ter perguntado se ela gostaria de manter contato. Poderia ter dito que queria conhecê-la melhor, agora que finalmente começava a enxergar nela algo além das brincadeiras e dos comentários inesperados.
Mas não disse.
Gabi também não perguntou se ele sentiria sua falta de verdade. Não tentou descobrir o que havia por trás daquele olhar um pouco mais demorado.
Em vez disso, ela deu um passo à frente e o abraçou.
Marcos correspondeu ao abraço e sentiu seu perfume pela última vez. Foi um gesto simples, porém mais demorado do que ele imaginava que seria.
— Se cuida, Marcos — murmurou Gabi.
— Você também.
Quando se afastaram, Gabi virou sorrindo.
— Tenta não virar um robô na faculdade, tá?
— E você tenta não sujar a roupa de ninguém com corante.
— Você não precisava lembrar disso.
— Como não lembrar, tá gravado na minha memória e no meu jaleco até hoje.
Gabi riu, balançou a cabeça e começou a se afastar.

Marcos permaneceu parado, acompanhando-a com o olhar até que ela se juntasse à família.
Só então percebeu que ainda sentia aquele aperto no peito.
Não sabia se era saudade antecipada, curiosidade ou alguma coisa que ainda não tinha coragem de nomear. Talvez fosse apenas a tristeza de ver alguém que tornara seus últimos dias mais interessantes seguir um caminho diferente.
Ou talvez não fosse só isso.
Marcos ajeitou os óculos e respirou fundo, tentando afastar o pensamento.
♡♡♡
Ana estava saindo do prédio do dormitório feminino, segurando o urso gigante de pelúcia e a última mochila com seus pertences. Seus pais já haviam levado o restante para o carro. Foi então que ouviu uma voz tão familiar.
— Ei, Ana — chamou Marcos.
Ela se virou e encontrou o amigo.
— Sabia que você viria se despedir de mim — ela brincou, sorrindo.
— Claro que vim. Seria estranho terminar assim, sem uma última conversa. — Ele pegou o urso para ajudá-la. — Fazia tempo que não via esse carinha.
— Pois é. Ele vai pra casa dos meus pais agora. Vai ser seu novo lar.
Caminharam juntos até o banco debaixo da árvore onde tantas vezes Marcos esperara Ana. Ele colocou o urso sobre o banco, e os dois se sentaram lado a lado.
— Mas você vai levar ele quando for pra faculdade né? — perguntou ele.
Ana soltou uma risada nervosa.

— Marcos, preciso te contar uma coisa que ainda não contei nem aos meus pais.
Ele se virou para ela, surpreso.
— Isso parece sério.
— É porque é.
Ana respirou fundo antes de continuar.
— O seu discurso me fez perceber que eu não posso continuar seguindo um caminho só porque sempre imaginei que deveria ser assim. Eu passei em Medicina, mas ainda não sei se é isso que realmente quero. E decidi que quero tentar participar de um projeto de voluntariado com a Kayla, na Amazônia.
Marcos ficou em silêncio por alguns segundos, assimilando a informação.
— Uau. Eu realmente não sei nem o que dizer.
Ana baixou os olhos.
— Você está decepcionado?
— Não! Quer dizer… vou sentir sua falta, claro. Achei que nós dois íamos continuar sendo a dupla imbatível, os CDFs da federal. Já tinha até imaginado você reclamando das minhas anotações.
Ela riu, emocionada.
Marcos sorriu, mas logo ficou sério.
— Só que, pensando bem, eu sempre desconfiei que você talvez tivesse escolhido Medicina por influência minha. Você me acompanhou durante tanto tempo, estudamos juntos, falamos tanto sobre a faculdade… Talvez tenha ficado difícil separar o meu sonho do seu.
Ana assentiu lentamente.
— Acho que foi isso que aconteceu. Eu gosto de estudar, gosto de aprender e quero fazer alguma coisa que tenha significado. Só não sei se preciso começar pela Medicina agora.
— Então acho que você está fazendo a coisa certa.
Ela o olhou, surpresa.
— Você acha?
— Acho. E não vou fingir que não vou sentir falta de ter você por perto. Mas prefiro que você descubra o que realmente quer do que passe anos tentando realizar um sonho que talvez nem seja seu.
Ana sentiu os olhos marejarem.
— Estou com medo, Marcos. Muito mesmo.
— Então você escolheu o caminho com curvas? — ele perguntou, com um sorriso discreto.
Ela assentiu.
— Acho que sim. Vou conversar com meus pais, entender como funciona o projeto e descobrir se realmente posso participar. Mas quero tentar.
Marcos sorriu, agora com um orgulho que não precisava esconder.
— Então vai com medo mesmo, Lalitinha. A faculdade vai continuar no mesmo lugar para quando, e se, você decidir fazer, seja Medicina ou qualquer outro curso. Só não esquece de mandar notícias, tá? Por favor, não me abandona completamente. Eu ainda vou precisar de alguém para me dizer quando estou sendo certinho demais.
Ana riu e limpou discretamente uma lágrima.
— Vou sentir sua falta — disse Ana.
Marcos a olhou com carinho.
— Eu também. Você foi meu porto seguro aqui. A amiga que todo mundo gostaria de ter.
Ele se inclinou e a abraçou com força. Um abraço apertado e demorado, cheio de tudo o que não precisava ser dito em palavras: carinho, admiração, gratidão e a certeza de que a amizade continuaria existindo, mesmo que suas rotinas fossem completamente diferentes.
— Cuida de você, Lalitinha — murmurou ele.
— Você também, Senhor Certinho.
Eles se afastaram, e Marcos olhou para trás de Ana, a alguns metros de distância.
— Acho que tem mais alguém querendo se despedir de você.
Ana seguiu o olhar dele e viu Pedro parado a uma certa distância, perto do caminho que levava ao dormitório masculino. Ele parecia esperar, sem querer interromper o momento dos dois.
Ana sentiu o coração acelerar.
Marcos apertou de leve o ombro dela.
— Vai lá. Acho que vocês precisam dessa conversa.
Ela assentiu, emocionada.
— Obrigada por tudo, Marcos.
— Sempre, Ana.
Marcos se levantou e se afastou, deixando que ela tivesse aquele último momento com Pedro.
Marcos passou por ele e deu uma batidinha no ombro do irmão.
— Boa sorte… não faz besteira.
Pedro apenas assentiu com a cabeça.
Ele esperou até que Marcos se afastasse antes de se aproximar.
Ana ficou de pé o esperando.
— Oi — disse ela, com um sorriso tímido.
— Oi — respondeu Pedro.
Pedro se aproximou, ficando diante de Ana. Por alguns segundos, os dois apenas se olharam, como se ainda estivessem tentando encontrar as palavras certas.
Ele segurou a mão dela.
— Eu só queria me despedir direito. Não queria ir embora sem te ver mais uma vez… sem saber se estamos bem.
Ana apertou delicadamente os dedos dele.
— Estamos, Pedro. Só não sei se isso torna as coisas mais fáceis.
Ele baixou os olhos por um instante, depois a puxou para um abraço.
Ana envolveu a cintura dele com os braços e encostou o rosto em seu peito. Ficaram assim por alguns segundos, sem tentar preencher o silêncio. Havia muita coisa que gostariam de dizer, mas nenhum dos dois queria transformar aquela despedida em mais uma promessa que não sabia se conseguiria cumprir.
Quando se afastaram, Pedro percebeu que Ana estava chorando. Com delicadeza, enxugou uma lágrima de seu rosto.
— Ei… vai ficar tudo bem — sussurrou, embora sua própria voz não parecesse tão segura.
Ana soltou uma risadinha triste.
— Você vai ficar bem?
— Eu gosto muito de você, mas vou ficar bem, não se preocupe.
Ela o observou por mais um instante. Então, segurando de leve a camisa dele, ficou na ponta dos pés e lhe deu um beijo suave.
Pedro correspondeu, fechando os olhos. Por um breve momento, foi fácil esquecer a distância que haviam decidido colocar entre eles.

Mas, quando se afastaram, ambos sabiam que o beijo não mudava o que precisavam fazer.
Pedro encostou a testa na dela por um instante.
— Cuida de você, Lalita.
— Você também, Pedro.
Ela tentou sorrir, mas os olhos voltaram a se encher de lágrimas. Pegou o urso e a mochila e deu alguns passos em direção ao estacionamento. Antes de continuar, olhou para trás uma última vez.
Pedro ainda estava ali.
Ana ergueu a mão em um pequeno aceno, e ele retribuiu.
Ela seguiu para o carro, segurando o urso forte contra o peito. Pedro estava ficando para trás, assim como o Monte Vale. Os corredores, as salas de aula e todas as pequenas rotinas que haviam preenchido seus últimos anos.
Ela ainda não sabia exatamente o que aconteceria depois. Precisava conversar com os pais, conhecer melhor o projeto e descobrir se aquele caminho realmente fazia sentido para ela.
Mas já não sentia a mesma necessidade de ter todas as respostas.
Naquele dia, despediu-se de amigos que continuariam fazendo parte de sua vida, de sentimentos que ainda não tinham encontrado seu lugar e de uma versão de si mesma que acreditava precisar ter o futuro inteiro planejado.
O próximo passo ainda era incerto.
Mesmo assim, Ana continuou caminhando.
Dessa vez, não porque soubesse exatamente para onde estava indo, mas porque estava pronta para descobrir.



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