Trilhas, Brincadeiras e Aproximações
Depois do almoço, o grupo começou a se preparar para uma trilha mais longa e desafiadora. A professora Denise havia sugerido uma cachoeira escondida no coração da mata. Mesmo sabendo que o trajeto exigiria esforço, todos ficaram animados com a ideia — menos Gabi, que exclamou:
— Nossa, vocês gostam mesmo de trilha, né? Mas tudo bem, vamos lá.
No quarto, Gabi escolheu um biquíni estiloso, vestindo por cima uma blusa leve e um short-saia esportivo. Ana optou por algo mais discreto: um maiô neutro sob a calça de moletom e uma camiseta confortável.
Antes de partirem, Denise e Ricardo avisaram que não iriam acompanhá-los.
— Já fizemos essa trilha milhares de vezes — disse Denise, sorrindo.
— E depois da de hoje de manhã, preferimos um cochilo. Deve ser a idade! — completou Ricardo, em tom de brincadeira, arrancando risadas do grupo.
Gabi olhou para Pedro.
— Só quero deixar registrado que fazer uma trilha de duas horas no próprio aniversário é uma escolha questionável.
— Dezesseis anos, Gabi. Preciso começar essa nova fase tomando decisões ruins — respondeu Pedro.
— Pelo menos você é consciente — respondeu Gabi, rindo.
A trilha, de fato, foi puxada, com trechos íngremes e pedras escorregadias.
Enquanto o grupo avançava pelo caminho úmido e cercado por vegetação densa, as conversas iam se misturando ao som dos passos e da natureza.
— Você acha que a cachoeira é mesmo tão bonita quanto disseram? — perguntou Gabi a Marcos, ajeitando a alça da mochila no ombro.
— Com certeza — respondeu Marcos, andando à frente. — O Ricardo falou que ela é meio escondida, mas vale muito a pena. É dessas que a gente se sente dentro de um filme.
— Ou de um comercial de perfume herbal — brincou Pedro. — Se alguém escorregar na pedra, já temos até o efeito em câmera lenta.
Ana riu.
— Só se for você, Pedro. Vai cair de propósito pra fazer cena — falou Gabi.
— Eu não. Mas, se cair, quero uma trilha sonora dramática. Tipo coral cantando ao fundo.
Gabi bufou entre risos.
— Você é ridículo.
— Mas a Ana vai me proteger, não é, Ana? — Pedro parou e se virou para ela com aquele sorriso que vinha ficando cada vez mais difícil de ignorar.
Ana sentiu o rosto esquentar, mas, em vez de desviar, sorriu de volta.
Marcos olhou rapidamente para os dois e sorriu antes de voltar a atenção para o caminho.
Mais à frente, o grupo precisou passar por uma área estreita, com pedras ainda molhadas pela chuva. Marcos estendeu a mão para Gabi, que aceitou com um sorriso satisfeito.
Pedro fez o mesmo com Ana, mas, em vez de simplesmente oferecer a mão, perguntou:
— Senhora das trilhas, aceita meu apoio humilde?
— Aceito, cavaleiro do mato — respondeu Ana, rindo enquanto segurava a mão dele.
O clima entre eles era leve e divertido, pontuado por provocações carinhosas e olhares discretos.
Levou quase duas horas até que finalmente chegassem ao destino.
A cachoeira surgia escondida entre altas paredes de pedra cobertas por musgo. A água despencava de uma fenda estreita e caía com força em uma pequena piscina de tom verde-esmeralda. Raios de sol atravessavam as copas das árvores e iluminavam a névoa fina formada pela queda.

O som da água ecoava pelo cânion, e o ar era fresco, úmido e carregado pelo cheiro de terra molhada e folhas. Tão isolado no meio da mata, o lugar dava a impressão de estar muito distante de qualquer outra coisa.
A água, no entanto, estava absurdamente gelada.
As meninas, mesmo com o calor da caminhada, hesitaram em tirar a roupa e entrar. Já os meninos — dispostos a provar coragem — não pensaram duas vezes. Tiraram as camisetas e se jogaram na água, soltando gritos de susto ao sentirem a temperatura. Saíram rindo, mas tremendo de frio.
Gabi aproveitou a oportunidade para se aproximar de Marcos.
— Tenho que admitir, Senhor Certinho. Entrar nessa água sem nem hesitar foi quase heroico.
Marcos olhou para ela por um instante. A essa altura, já não era tão difícil perceber quando Gabi procurava uma desculpa para se aproximar.
— Quase? — perguntou, divertido.
— Não vamos exagerar.
Ele riu, mas logo voltou a comentar sobre a formação das rochas e o caminho que teriam de fazer na volta.
Gabi soltou um pequeno suspiro, mas acabou sorrindo também.
Ana, que observava de longe, precisou desviar o rosto para esconder a vontade de rir.
Na volta, o cansaço começou a pesar. A mata, antes cheia de expectativa, agora parecia mais fechada e silenciosa. Gabi resmungava de vez em quando que o caminho parecia misteriosamente mais longo, enquanto Pedro seguia fazendo piadas sobre virar um ermitão da floresta caso nunca encontrassem o chalé novamente.
Marcos ia mais à frente, atento ao caminho, com Gabi caminhando perto dele. Ana e Pedro vinham alguns passos atrás, aproveitando o som dos pássaros e o cheiro fresco das folhas molhadas.
Em um ponto mais estreito, Ana se distraiu com a paisagem, pisou em falso numa pedra lisa e perdeu o equilíbrio.
— Ai!
Ela abriu os braços instintivamente em busca de apoio.
Antes que caísse, Pedro segurou seu braço e a puxou para perto, firmando os pés no chão escorregadio. Uma das mãos acabou apoiada na cintura dela.

— Calma, Lalitinha. Tá tudo bem — disse ele, ainda segurando-a. Então sorriu. — Acho que agora virei herói da trilha, hein?
Ana riu, ainda um pouco assustada.
— Valeu… herói do mato.
Só então os dois perceberam o quanto estavam próximos.
Por um instante, nenhum deles se mexeu.
Ana sentiu as bochechas esquentarem, e Pedro pareceu esquecer completamente a próxima piada que pretendia fazer.
Ela foi a primeira a baixar os olhos, recuperando o equilíbrio, e Pedro soltou sua cintura devagar.
— Acho melhor eu começar a prestar mais atenção onde piso — murmurou Ana.
— Ou continuar andando perto de mim.
Ela ergueu os olhos para ele.
Pedro sorriu, e os dois retomaram a caminhada.
Mais à frente, Gabi encontrou outra oportunidade.
Uma flor diferente crescia próxima à lateral da trilha, e ela imediatamente começou a explicar para Marcos algumas características da planta com a segurança de uma botânica experiente.
Pedro diminuiu um pouco o passo e comentou em voz baixa, apenas para Ana ouvir:
— Ela tá tentando impressionar o Marcos desde o café da manhã.
Ana segurou o riso.
— Não. Ela tá tentando impressionar ele desde o primeiro ano.
Pedro olhou novamente para Gabi.
— Como ela sabe tudo isso da flor? Aqui não pega sinal pra ela ter pesquisado no Google.
— Eu vi ela folheando um livro sobre botânica da prateleira da Denise ontem à tarde. Deve ter servido pra alguma coisa.
Pedro arregalou os olhos, impressionado com o comprometimento.
— Mas… boa sorte pra ela, então. O Senhor Certinho não se abala fácil.
O grupo seguiu mais unido e descontraído, apesar do cansaço.
Quando o chalé apareceu ao longe, todos comemoraram. Pedro se jogou na grama.
— Se esse é o meu presente de dezesseis anos, eu quero trocar.
— Tarde demais, maninho. Não dá pra voltar no tempo — respondeu Marcos.
Denise apareceu na varanda sorrindo, oferecendo garrafinhas de água e avisando que um belo café da tarde estava sendo preparado para recompensá-los pelo esforço.
Gabi foi a primeira a entrar no chalé.
— Preciso urgentemente de um banho e de alguns minutos sem trilhas, pedras ou lama.
Ana acompanhou a amiga desaparecer escada acima e comentou com Marcos:
— Acho que a trilha cansou mais do que ela esperava.
Ele pegou uma das garrafinhas de água.
— Ou talvez ela esteja um pouco frustrada por não conseguir o que queria.
Ana levantou as sobrancelhas.
— O que ela queria?
Marcos lançou um olhar na direção da escada por onde Gabi havia desaparecido.
— Você sabe.
Ana ficou alguns segundos encarando o amigo.
— Marcos, ela leu um livro de botânica ontem só pra conseguir falar de flor com você hoje.
— Eu sei.
Ana arregalou os olhos.
— E você deixou ela fazer aquela apresentação inteira!
— O que você queria que eu fizesse? Interrompesse?
— Não! — Ana riu. — Mas você também podia parar de ser tão difícil de vez em quando.
— Eu não sou difícil.
Ana apenas o encarou.
Marcos sustentou a expressão séria por alguns segundos.
— Tá. Talvez um pouco.
— Tenta ser mais gentil com ela.
— Eu sou gentil.
— Marcos.
— Eu só não quero alimentar falsas esperanças.
— Você não precisa se envolver com ela romanticamente. Só tenta… não ferir a autoestima dela.
— Tá bom, Lalitinha. — Ele balançou a cabeça, contendo um sorriso. — Vou tentar demonstrar que o problema não é ela.
Algum tempo depois, já de banho tomado e com roupas confortáveis, todos se reuniram novamente para o café da tarde.
Ricardo havia preparado a mesa com pães, frutas, geleias e um bolo ainda morno. Pedro apareceu primeiro e imediatamente tentou garantir o maior pedaço.
— O Aniversariante tem prioridade.
— Você já usou essa desculpa umas dez vezes hoje — disse Marcos.
— E vou continuar usando até meia-noite.
Enquanto Denise cortava o bolo, Marcos pegou um dos pedaços e o colocou em um pratinho separado.
Ana, sentada do outro lado da mesa, percebeu o gesto.
Pouco depois, Gabi apareceu com os cachos ainda um pouco úmidos do banho.
— Finalmente uma atividade que não exige subir uma montanha.
— Esse é seu — disse Marcos, empurrando o pratinho que havia separado na direção dela.
Gabi olhou primeiro para o bolo e depois para ele.
— Você guardou pra mim?
Marcos deu de ombros.
— Antes que o Pedro comesse tudo e você ficasse sem.
Ela piscou, surpresa.
— Obrigada.
Gabi sentou ao lado dele.
Ana abaixou os olhos para a própria xícara para esconder o sorriso.
Enquanto os outros conversavam, Gabi pegou o celular e começou a passar pelas fotos que haviam tirado durante o dia.
— Não. Horrível. Apagar. Essa também. Meu Deus, Ana…
Ana olhou para ela.
— O quê?
— Você tem algum problema em avisar antes de tirar uma foto?
— As espontâneas são as melhores.
— Pra você, que não é a vítima delas.
Gabi apagou mais uma.
— Olha isso! Eu nem sabia que você estava tirando.
Marcos se inclinou um pouco para ver a tela.
— Por que você tá apagando?
— Porque eu fui pega desprevenida em praticamente todas.
Ela passou para outra.
— Essa aqui também vai embora.
— Essa ficou ótima — disse Marcos.
Gabi parou.
— Essa?
Na fotografia, ela estava rindo de alguma coisa, sem olhar para a câmera. Os cachos estavam um pouco bagunçados pelo vento e não havia nenhuma pose cuidadosamente preparada.
— Eu nem tava olhando pra foto.
— Justamente.
Gabi franziu a testa.
— Como assim?
Marcos observou a imagem mais uma vez.
— Seu sorriso fica mais bonito quando é natural.
O dedo de Gabi parou sobre a tela.
Ela virou lentamente o rosto para ele.
Por alguns segundos, não disse absolutamente nada.

Ana quase riu. Aquilo, por si só, já era extraordinário.
Gabi, que sempre tinha uma resposta pronta, parecia ter esquecido todas elas.
— Você… — começou, mas parou.
Ela tentou voltar a atenção para o celular, mas um sorriso escapou antes que conseguisse controlar.
Marcos percebeu.
— Tipo agora.
Gabi baixou os olhos para o celular outra vez, claramente sem saber onde enfiar a cara. As bochechas estavam quentes, e ela passou para a fotografia seguinte sem nem olhar direito para ela.
Ana acompanhou a cena do outro lado da mesa.
Conhecia Gabi o suficiente para saber exatamente o efeito que aquelas poucas palavras tinham causado.
Mas conhecia Marcos ainda melhor.
E era justamente por isso que aquele elogio simples havia chamado tanto sua atenção.
Ele raramente dava abertura para as investidas de Gabi. Naquela tarde, porém, não apenas havia reparado nela.
Tinha feito questão de dizer.



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